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terça-feira, 1 de maio de 2012

Matéria: Amazônia, a Cobiça do Mundo




A Cobiça do Mundo

Para os ecologistas, a Amazônia é problema global; para Brasília, é coisa nossa.




WASHINGTON E GENEBRA - A Amazônia deveria ser considerada “um bem público mundial” e administrada pela comunidade internacional. A proposta foi feita por Pascal Lamy, quando era candidato ao cargo que ocupa hoje, de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo brasileiro reagiu com grande irritação. Depois disso, a maioria dos líderes estrangeiros mostrou-se mais cuidadosa ao propor formas de atuação na preservação da Amazônia, tentando afastar o fantasma da “internacionalização”. Mas entidades não-governamentais e governos de outros países deixaram claro que não abrem mão de participar da conservação da maior floresta do planeta.

“Para o bem ou para o mal, a Amazônia estará no olho do furacão das mudanças climáticas no planeta nas próximas décadas”, diz Pedro Bara, diretor de Políticas para a Amazônia da ONG WWF. “A posição das instituições internacionais mudou muito – não existe mais aquele paternalismo, aquela postura de que o Brasil devia fazer isso, o Peru aquilo”, diz Thomas Lovejoy, presidente do Heinz Center, de Ciência, Economia e Meio Ambiente, que nos anos 80 cunhou o termo biodiversidade. “Mas, ao mesmo tempo, todos têm consciência de que tudo está interconectado e as florestas têm um papel enorme no ciclo do carbono.”

Nos anos 70, a visão do governo brasileiro era de que os recursos da Amazônia eram inexauríveis. A mata era tão grande que ia durar para sempre. Era a época da “Amazônia é nossa” e do “integrar para não entregar”, slogans do regime militar. Já ambientalistas estrangeiros como Betty Meggers, do Smithsonian, achavam que a Amazônia deveria ser intocável: qualquer ocupação da região iria destruí-la. Essa visão foi mudando dos dois lados, explica Mark London, autor do livro A Última Floresta – A Amazônia na Era da Globalização, recém-lançado no Brasil pela Martins Fontes Editora. Fora do País, aceita-se que algumas formas de ocupação em áreas já devastadas são inevitáveis. E, dentro do Brasil, cresceu a conscientização do governo.

Globalmente, a consciência sobre a importância da preservação da Amazônia está no ápice, diz London. “As pessoas entendem o enorme papel da Amazônia na mudança climática – tanto por ser um enorme reservatório de gás carbônico como de umidade”, diz. “As pessoas se dão conta de que uma árvore derrubada na Amazônia afeta a todos.”

Apesar de o ritmo de desmatamento ter caído 50% entre agosto de 2004 e julho de 2006, ambientalistas insistem na adoção de mais incentivos econômicos para promover a preservação. “Precisamos monetizar as florestas tropicais”, diz London. “Se o mundo conseguir descobrir como tornar a preservação da Amazônia mais economicamente atraente do que o desmatamento, a região estará salva.”

O Brasil recusa-se a aceitar condicionalidades para receber os recursos de entidades e de outros governos. O País não participa, por exemplo, dos programas de “Dívida por natureza”, que promovem redução de dívidas dos países em troca de metas de conservação de florestas. Lovejoy acredita que só existem dois instrumentos que governos estrangeiros e instituições multilaterais podem usar para auxiliar na conservação – fornecer recursos e promover pesquisa, tudo em colaboração com os povos locais. Não adianta tentar isolar áreas para preservação à revelia do povo da região.

Mas ele aponta que é do maior interesse do governo brasileiro aceitar participar de programas eficientes de conservação, já que um dos maiores prejudicados pela devastação da Amazônia é o próprio Brasil. A Amazônia é uma “máquina de chuva” que garante o sucesso do agronegócio do Centro-Oeste e Sudeste brasileiros, diz ele.

Até a religião mexe com os brios do governo brasileiro, quando o assunto é Amazônia. Neste ano, o Vaticano tentou propor um acordo com Brasília para garantir, entre vários aspectos, que missionários da Santa Sé pudessem entrar tanto em reservas ecológicas como em áreas indígenas sem a necessidade de autorizações específicas. O Vaticano esperava assinar o tratado durante a visita do papa Bento XVI, em maio. Mas o governo brasileiro freou a iniciativa e deixou claro que esse não era o momento; em resposta, enviou uma contraproposta de acordo, bem menos ambicioso.

Conforme o Estado revelou, as referências aos missionários e à liberdade de entrar em áreas da floresta foram eliminadas na resposta ao Vaticano. Para o governo, essa é uma questão que nem sequer deve ser alvo de negociações. A decisão de Brasília foi a de retirar do texto qualquer citação ao assunto. Frustrado por não conseguir um acordo em maio, o Vaticano até agora não respondeu à contraproposta brasileira.

Nos últimos meses, um número cada vez maior de ativistas e líderes internacionais passou a criticar a forma pela qual o etanol e a cana-de-açúcar estariam colocando em risco a floresta amazônica. O governo não vem economizando energia para explicar no exterior que a produção de etanol não viria do Amazonas. A reação do presidente Lula às críticas mostrou que a necessidade de garantir a soberania sobre a região continua dominante em Brasília. “A Amazônia é nossa”, disse Lula.


O governo brasileiro tem ainda outro temor: o conflito armado na Colômbia. Nos últimos meses, a ONU vem alertando que centenas de colombianos estão buscando refúgio em território brasileiro. Existiriam entre 15 mil e 20 mil colombianos vivendo na Amazônia brasileira; o governo só reconhece a existência de 4 mil. Nos corredores da ONU em Genebra, comenta-se que o reconhecimento pelo Brasil da existência de um número grande de refugiados poderia colocar pressão para que as Nações Unidas reforçassem sua atuação humanitária na região, com a possibilidade até mesmo da criação de um escritório internacional em plena floresta, como já existe na Amazônia equatoriana e venezuelana. Fontes do governo brasileiro admitem que Brasília não quer nem ouvir falar no assunto, temendo que isso signifique a internacionalização do conflito na Colômbia para terras brasileiras.



Veja também:
Série Os Rios e a Vida

Série Amazônia Pública

Série Amazônia, a Vida nas Águas

Série A Floresta e Você

Série Florestabilidade
Florestabilidade: Um Projeto de Educação para o Manejo Florestal: http://projetoluzevidamissaoamazonia.blogspot.com.br/2013/03/florestabilidade-um-projeto-de-educacao.html

Série Índios no Brasil

Outros Vídeos e Textos:
Mudanças Climáticas no Brasil: A Percepção dos Povos da Floresta: http://projetoluzevidamissaoamazonia.blogspot.com.br/2013/04/mudancas-climaticas-no-brasil-percepcao.html


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