quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Artigo: São Gabriel da Cachoeira - AM



As Misérias da Capital Indígena

São Gabriel Atrai Jovens e as Mazelas da Cidade Grande




SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM) - Pense e aja como caçador, e não como caça. Essa é a primeira lição que os recrutas indígenas ouvem quando chegam para servir na 2ª Brigada de Infantaria de Selva. É um ensinamento que eles já conhecem e uma linguagem que lhes é íntima. Mas, quando servem em São Gabriel da Cachoeira, a capital indígena do Brasil, os jovens índios têm algo mais a aprender, além de sobreviver na mata: como manter-se vivo numa cidade que é estratégica para eles e para os brancos, está na boca da floresta e é uma terra para onde convergem aventureiros e aproveitadores. Embora de 85% a 90% dos 34 mil habitantes sejam indígenas, o município nunca elegeu um prefeito indígena.

Os índios não têm uma só das casas de comércio; todas pertencem a nordestinos, chegados ali entre os anos 70 e 80; a maioria veio para servir o Exército e ficou. São Gabriel é o terceiro município do Brasil em extensão, maior que oito Estados, inclusive Pernambuco e Santa Catarina: tem 110 mil km² de área (perde para Altamira, no Pará, com 160 mil km², e Barcelos, também no Rio Negro, com 122 mil km²). Abriga 34 mil km² de terras indígenas, 22 mil km² do Parque Nacional da Serra da Neblina, 11 áreas de florestas nacionais e uma área de reserva florestal. É cortado pela linha do Equador e adotou quatro línguas oficiais (português, ñeengatu, baniua e tucano).

Em frente à cidade, o Rio Negro forma corredeiras majestosas – que os habitantes locais chamam de “cachoeiras” – daí, o nome. A cidade tem jeito de nova fronteira: o comércio não tem especialidades – praticamente todos os estabelecimentos são generalistas, vendem de tudo. A moda, agora, é abrir lan-house, que cobra entre R$ 1,50 e R$ 2,50 a hora. Elas enfrentam, todas, o mesmo problema: não é toda hora que as linhas telefônicas estão funcionando. Quando funcionam, os grupos de adolescentes indígenas, todos com pouco dinheiro, racham moedas e se juntam num mesmo computador para navegar.

Quando a noite chega, a cidade é dominada pelo rugido ensurdecedor do conjunto de geradores que produz energia. O barulho vai durar até o fim da madrugada. Nos hotéis, modestíssimos, há ar-condicionado – os estrangeiros e sulistas não sobreviveriam sem ele, com a média anual de 30º C –, mas os quartos não têm água quente e nos raros dias de friagem amazônica, quando as temperaturas despencam à noite, é difícil para os “estrangeiros” encarar um banho.

É para São Gabriel, principalmente, que os indígenas das 23 etnias do Alto Rio Negro migram, na busca desesperada por emprego. Acabam caindo na periferia, que já tem indicadores violentos. Mais do que em qualquer outro lugar da Amazônia, é ali que muitos indígenas vivem a tragédia da transição social: deixam suas aldeias, caem na cidade, aceitam subemprego e, aos poucos, deixam de ser índios para se transformarem em caboclos imprecisos. Perdem a condição especial de índios e não conseguem escalar a melhoria social que tinham projetado.

O mais grave é que a fronteira com Colômbia e Venezuela está a 300 km pelo rio, mas o tráfico usa a rota. As pessoas de São Gabriel dizem que às vezes enviados de traficantes aparecem na cidade, embora o mais comum é que façam compras no comércio de Iauaretê e Cucuí. Além dos traficantes e das Farc – o que significa a mesma coisa –, os confins da Amazônia oferecem o esconderijo ideal para criminosos de variados matizes; alguns vão lá para aplicar golpes, outros para se esconder e recomeçar a vida.

Só se chega a São Gabriel da Cachoeira de avião ou de barco. A única estrada tem apenas 30 km de extensão e leva ao porto de Camanaus, fim da linha no Rio Negro para os barcos maiores (daí por diante, rio acima, só botes a motor passam pelas pedras e corredeiras). A outra possibilidade de viajar de carro era para Cucuí e a Venezuela, mas a floresta comeu a estrada. Com seus afluentes, o Rio Negro é o centro nervoso que interliga São Gabriel a suas vilas (Iauaretê, Taracuá e Pari-Cachoeira) e a 500 comunidades indígenas.

Em 2004, os indígenas, maioria esmagadora do eleitorado, tentaram eleger o prefeito, mas, uma Kombi nova aqui, uma voadeira ali, muitos caciques deram apoio a um branco, o professor Juscelino Gonçalves (PSL), hoje dono da casa mais espetacular da cidade e candidato à reeleição. “Nas campanhas eleitorais, aqui, vale tudo, motor de popa, cesta básica, dinheiro”, comenta Domingos Tukano, coordenador da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Agora, as lideranças indígenas se dizem vacinadas contra a pulverização dos votos e estão lançando novamente Pedro Garcia Tariano, que perdeu para Juscelino por 200 votos em 2004. No entorno, São Gabriel começa a se parecer com as periferias das grandes cidades. 

O crime chega, avança e a miséria se instala rápido. Na estrada para Cucuí, a prefeitura instalou o lixão da cidade ao lado da comunidade Boa Esperança, onde moram índios tucanos. O primeiro susto veio quando uma fogueira acesa por meninos que brincavam no lixão fez espocar vários cartuchos velhos que alguém tinha jogado fora. Mas Regina, uma velha tucana, encontrou utilidade no lixão. Todos os dias vai lá catar objetos velhos. Foi assim que encontrou um carrinho de bebê para sua neta.



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Mudanças Climáticas no Brasil: A Percepção dos Povos da Floresta: http://projetoluzevidamissaoamazonia.blogspot.com.br/2013/04/mudancas-climaticas-no-brasil-percepcao.html


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