segunda-feira, 19 de maio de 2014

NT Sateré-Mawé


O Novo Testamento na Língua Sateré-Mawé
“Tupana Ehay Satere Mawe Pusupuo”

Edição 2011



Recursos na Língua Sateré-Mawé:

Baixar o módulo de telefone celular para MySword (Android)
Baixar o Novo Testamento para uso com o software de estudo bíblico “The Word”


Sateré-Mawé
Outros nomes: Sateré-Mawé
Onde estão: AM
Quantos são: 10.761 (Funasa, 2010); 13.350 (CGTSM, 2014)
Família linguística: Mawé


Menino Saterê-Mawé, Foto - Sônia da Silva Lorenz




Nome
São chamados regionalmente "Mawé''. Ao longo de sua história, já receberam vários nomes, dados por cronistas, desbravadores dos sertões, missionários e naturalistas: Mavoz, Malrié, Mangnés, Mangnês, Jaquezes, Magnazes, Mahués, Magnés, Mauris, Mawés, Maragná, Mahué, Magneses, Orapium.
Autodenominam-se Sateré-Mawé. O primeiro nome - Sateré - quer dizer "lagarta de fogo'', referência ao clã mais importante dentre os que compõem esta sociedade, aquele que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos. O segundo nome - Mawé - quer dizer "papagaio inteligente e curioso'' e não é designação clânica.


Família da aldeia Campo do Miriti, rio Miriti, TI Andirá-Marau



Língua
A língua Sateré-Mawé integra o tronco linguístico Tupi. Segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948), ela difere do Guarani-Tupinambá. Os pronomes concordam perfeitamente com a língua Curuaya-Munduruku, e a gramática, ao que tudo indica, é tupi. O vocabulário Mawé contém elementos completamente estranhos ao Tupi, mas não se relaciona a nenhuma outra família lingüística. Desde o século XVIII, seu repertório incorporou numerosas palavras da língua geral.
Os homens atualmente são bilíngues, falando o Sateré-Mawé e o português, mas, apesar de mais de três séculos de contato com os brancos, nas aldeias mais afastadas ainda se encontra mulheres que só falam a língua materna.


Crianças Sateré-Mawé, Foto - Sônia da Silva Lorenz




Localização
Os Sateré-Mawé habitam a região do médio rio Amazonas, em duas terras indígenas, uma denominada TI Andirá-Marau, localizada na fronteira dos estados do Amazonas e do Pará, que vem a ser o território original deste povo, e um pequeno grupo na TI Coatá-Laranjal da etnia Munduruku.
Os Sateré-Mawé também são encontrados morando nas cidades de Barreirinha, Parintins, Maués, Nova Olinda do Norte e Manaus, todas situadas no estado do Amazonas.

Cabeceira de Rio, Foto - Sônia da Silva Lorenz


Território e história do contato com os brancos
Segundo relatos dos velhos Sateré-Mawé, seus ancestrais habitavam em tempos imemoriais o vasto território entre os rios Madeira e Tapajós, delimitado ao norte pelas ilhas Tupinambaranas, no rio Amazonas e, ao sul, pelas cabeceiras do Tapajós.
Os Sateré-Mawé referem-se ao seu lugar de origem como sendo o Nusoken, lugar da morada de seus heróis míticos. Eles localizam-no na margem esquerda do Tapajós, numa região de floresta densa e pedregosa, ''lá onde as pedras falam''.
Nunes Pereira, que viveu com esse povo na década de 1950, conta que ''os lagos e rios piscosíssimos que irrigam as terras em que viveram outrora os Maués e, bem assim, as florestas e campinaranas ricas em caças de toda espécie, deveriam constituir, numa época mais remota, uma paisagem magnífica para as atividades desse povo. À representação panteísta do Noçoquem, - sítio onde se encontravam todas as plantas e animais úteis aos Maués, segundo a Lenda do Guaraná, deveria corresponder, outrora, o território por eles ocupado''.


Modelando o pão de guaraná, rio Marau


Os Sateré-Mawé tiveram seu primeiro contato com os brancos na época de atuação da Companhia de Jesus, quando os jesuítas fundaram a Missão de Tupinambaranas, em 1669. Segundo Bettendorf, "Em 1698 os Andirá acolheram o Padre João Valladão como missionário. É impossível localizar os Maraguá precisamente, mas eles viviam num lago, entre os rios Andirá e Abacaxi, provavelmente no baixo Maués-Açu, que se espraia para formar uma espécie de lago. Eles tinham três vilas, uma próxima da outra" (1910:36). Em 1692, após terem matado alguns homens brancos, o governo declarou uma guerra justa (legal) contra eles, parcialmente evitada pelos índios, uma vez que estes foram avisados e se espalharam, sendo que somente alguns ofereceram resistência.
A partir do contato com os brancos, e mesmo antes disso, devido às guerras com os Munduruku e Parintintim, o território ancestral dos Sateré-Mawé foi sensivelmente reduzido. Em 1835 eclodiu a Cabanagem na Amazônia, principal insurreição nativista do Brasil. Os Munduruku e Mawé (dos rios Tapajós e Madeira) e os Mura (do rio Madeira), bem como grupos indígenas do rio Negro, aderiram aos cabanos e só se renderam em 1839. Epidemias e perseguição aos grupos indígenas que com eles combatiam, deslocaram esses grupos dos seus territórios tradicionais, reduzindo-os.


Colombo Miquiles, aldeia Nova Esperança, rio Marau, TI Andirá-Marau, fazendo tessumi


Relatos dos viajantes confirmam que de fato houve redução territorial a partir do século XVIII, mencionando a área compreendida pelo rio Marmelos, Sucunduri, Abacaxis, Parauari, Amana e Mariacuã como território tradicional dos Sateré-Mawé. Esses relatos confirmam também que as cidades de Maués (AM), Parintins (AM) e Itaituba (PA) foram fundadas sobre sítios Sateré-Mawé, coincidindo com passagens da história oral deste povo.
Pensando em termos de macro-território, a ocupação do Médio Amazonas pelos civilizados - termo usado pelos Sateré-Mawé para designar todos àqueles que não são Sateré-Mawé: caboclos, brancos, estrangeiros, com exceção das outras nações indígenas - restringiu consideravelmente seu território tradicional. Primeiro, chegaram as tropas de resgate e as missões jesuíta e carmelita; depois iniciou-se a busca das drogas de sertão; em seguida a extração da seringa; e finalmente a expansão econômica das cidades de Maués, Barreirinha, Parintins e Itaituba para o interior dos municípios, alocando fazendas, extraindo pau-rosa, abrindo garimpos, dominando a economia indígena através de seus regatões.


Clareira aberta no interior da TI Andirá-Marau pela Elf-Aquitaine


Em 1978, no início do processo de demarcação da Terra Indígena Andirá-Marau, as aldeias, sítios, roças, cemitérios, territórios de caça, pesca, coleta e perambulação situavam-se entre e ao redor dos rios Marau, Miriti, Urupadi, Manjuru e Andirá. Os Sateré-Mawé consideravam essa extensão de terra como sendo sua, apesar de saberem que ela representava apenas uma pequena parcela do que já havia sido seu território. O trabalho de delimitação e demarcação da Terra Indígena Andirá-Marau, passou por revisões de limites para a inclusão de nascentes, cemitérios e sítios de antigas aldeias, e, os Sateré-Mawé avaliaram que a área demarcada corresponde a parte privilegiada de seu território originário.


Mulher Sateré-Mawé, Foto - Sônia da Silva Lorenz


Eles são tradicionalmente índios da floresta, do centro, como eles próprios falam. Até o começo do século XX escolhiam lugares preferencialmente nas regiões centrais da mata, próximas às nascentes dos rios, para implantarem suas aldeias e sítios. Nessas regiões, a caça é abundante; encontra-se em profusão os filhos de guaraná (como chamam, em português, as mudas nativas da Paullinia Sorbilis); existe grande quantidade de palmeiras como o açaí, tucumã, pupunha e bacaba, que sazonalmente comparecem na dieta alimentar; os rios são igarapés estreitos, com corredeiras e água bem fria. Esse é o ecossistema por excelência dos Sateré-Mawé e podemos observar ainda hoje, que as aldeias que guardam formas de vida tradicionais ''como no tempo dos velhos'' (plano espacial, arquitetura, roças, rituais etc.) situam-se nas cabeceiras dos rios.


Rio Andirá, TI Andirá-Marau


As características desses nichos ecológicos eram essenciais à reprodução da vida tradicional dos Sateré-Mawé até o começo do século XX. Conforme os relatos dos mais velhos, as antigas aldeias Araticum Velho e Terra Preta, ambas situadas na cabeceira do rio Andirá, foram o polo dispersor das aldeias encontradas neste rio. Da mesma forma, a aldeia Marau Velho, que se localizava na nascente do rio Marau, foi o núcleo inicial das aldeias situadas no mesmo rio, bem como das aldeias que encontramos nos rios Miriti, Manjuru e Urupadi. Estas três aldeias desapareceram em torno da década de 20, mas ainda podemos observar seus sinais na capoeira.


Costureira, Foto - Sônia da Silva Lorenz

A proliferação de aldeias situadas nas margens dos rios Marau e Andirá vem ocorrendo há aproximadamente 80 anos e se deve às interferências na vida tradicional dos Sateré-Mawé, ocasionadas pelas missões religiosas, pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios - SPI, posteriormente pela Fundação Nacional do Índio - Funai, pela pressão dos regatões e pelas epidemias. Todos esses fatores levaram os Sateré-Mawé a terem vontade de ficar mais próximos das cidades de Maués, Barreirinha e Parintins. Atualmente, existe em torno de 100 aldeias localizadas nos rios Uaicurapá, Andirá, Urupadi, Marau, Miriti e Manjuru, bem como nos igarapés que os alimentam.


Mulher torrando farinha. Foto -  Sônia da Silva Lorenz


O processo de demarcação da TI Andirá-Marau, homologada em 06/08/1986 com 788.528 há, foi interrompido por vários conflitos, e os tuxauas gerais do rio Andirá, Donato Lopes da Paz, e do rio Marau, Emílio Tibúrcio, através do Centro de Trabalho Indigenista – CTI puderam contar com respaldo jurídico e mobilização junto à sociedade civil, fazendo frente ao projeto de rodovia Maués-Itaituba que cortaria o seu território (1980) e às invasões da estatal francesa de petróleo Elf-Aquitaine (1981 e 1982), com abertura de 344 km de picadas, 82 clareiras, e a morte por intoxicação de quatro indígenas. Os Sateré-Mawé entraram com uma ação de Interdito Proibitório contra a Elf-Aquitaine e a Petrobrás, representados por seu procurador Dalmo Dallari, e realizaram perícia com cálculo de indenização pelos danos causados pelas invasões da estatal francesa, ganhando ambos os processos.



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