segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Artigo: Condições para viver, produzir e prosperar


Viver, Produzir e Prosperar


Lucila Cano: lcano@terra.com.br

Entre nós, o que deveria ser comum e natural é quase sempre exceção. Assim é com o índio, um brasileiro que, vez por outra, ganha destaque no noticiário, nas rodas de amigos, nas conversas em família. Mas, e infelizmente, por pouco tempo.




A questão indígena passa ao largo do nosso dia a dia. Sabemos por alto dos conflitos decorrentes da ocupação de terras; dos protestos pelo descaso com que tribos inteiras são tratadas por autoridades governamentais; de etnias condenadas ao abandono; de comunidades isoladas que, de repente, surgem em algum ponto das florestas.
O curioso, e ao mesmo tempo triste, é que para a maioria da população, talvez porque concentrada em aglomerados urbanos, o índio é um ser a parte, ou pior, apenas parte dos habitantes identificados para o Censo.
Esquecemos das importantes contribuições das comunidades indígenas para a formação da sociedade em que vivemos. Não me refiro só a heranças do passado, ao profundo conhecimento da flora e da fauna, mas à participação desses brasileiros no presente. Esquecemos que, além da Amazônia, o índio está em São Paulo, no Espírito Santo, na Bahia e em muitos outros pontos do país.

Exceções
Em janeiro, alguns bons feitos indígenas viraram notícia. A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior de São Paulo, divulgou a aprovação de 35 candidatos indígenas no vestibular para cursos de graduação presenciais.
Em sua oitava edição, o processo seletivo para indígenas ofereceu uma vaga adicional em cada uma das 62 opções de cursos da instituição, de acordo com o Programa de Ações Afirmativas, aprovado em 2007 pelo Conselho Universitário da UFSCar. Participaram do vestibular 237 indígenas de 51 etnias de 14 estados.
No esporte, Yagoara Kambeba, conhecido como Dream Braga, tornou-se o primeiro atleta indígena convocado para treinar na Seleção Brasileira de Tiro com Arco. O jovem de 18 anos é nativo da região do Baixo Rio Negro, no Amazonas e, durante dois anos integrou o projeto Arqueria Indígena, da Fundação Amazônia Sustentável.
Por seu desempenho e sendo classificado em competições seletivas este ano, Dream Braga poderá participar da equipe que representará o Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro.
A exemplo dele, outro índio de 14 anos, de nome Inha, proveniente do mesmo projeto da Fundação Amazônia Sustentável, participou da seletiva da Confederação Brasileira de Tiro ao Arco, podendo passar um período no centro de treinamento da seleção, também no Rio de Janeiro.

Novos rumos
A aproximação da Seleção Alemã de Futebol com a comunidade indígena do Sul da Bahia durante a Copa do Mundo de 2014 rendeu notícias e pode ter avivado o interesse dos nativos por novas perspectivas de vida.
Por sinal, na mesma terra em que Cabral descobriu o Brasil, agora os indígenas descobrem a vocação para o ecoturismo e a preservação de seu legado cultural como fonte de trabalho e desenvolvimento sustentável.
O povo Pataxó, que habita as aldeias da região, incluindo a Reserva da Jaqueira, considerada uma área sagrada, vem se organizando para receber turistas com rituais, passeios guiados por trilhas, artesanato, comidas típicas e a força da identidade cultural que, assim, se cultiva para o futuro.
O modelo de preservação que se desenvolve na Bahia e os exemplos de outras partes do país, inclusive com o suporte de ONGs nacionais e estrangeiras, estão aí a mostrar que existe um mundo de possibilidades para todos.
Os indígenas brasileiros são capazes de superar dificuldades e serem bem-sucedidos. No entanto, as carências de estudo, assistência médica, saneamento, integração social e trabalho digno ainda são imensas. Nossos índios, assim como outros tantos milhões de brasileiros, clamam por mais atenção e melhores condições de vida.
Na verdade, é disso que todos precisam: condições para viver, produzir e prosperar.


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