sábado, 24 de outubro de 2015

Enawenê-Nawê 2/7: A Filha do Cacique


Enawenê-Nawê
Índios fazem Ritual para salvar Filha do Cacique
                                                                        
            Cacique Lolawenakwa-Ene    


A equipe do Globo Repórter chegou num momento delicado. Um dos mais difíceis na vida do cacique Lolawenakwa-ene. A filha dele sofreu uma pancada forte na cabeça e está em coma.
Eles fazem uma pajelança. Uma cerimônia quase que secreta. Dia e noite os pajés estão tentando reabilitar uma jovem de aproximadamente 13 anos que está desacordada. Os enfermeiros, os técnicos em saúde já tentaram também participar disso. Primeiro têm que fazer a pajelança. 

                                           

"Ela está com uma suspeita de meningite. Um caso sério. Só que eles só liberam para um atendimento médico a partir do término da pajelança deles”, explica Gilson Berns, técnico em enfermagem.
A pajelança pode durar dias ou semanas. Para os Enawenê, todos os males são provocados pela fúria dos espíritos.
Laloekamerose, irmão da menina doente, acredita na força das oferendas. Ele diz que vão esperar até três dias, cantando sem parar até que ela melhore.
A equipe do Globo Repórter conseguiu entrar com a câmera na maloca onde está havendo a pajelança. Neste momento ela está preparando mingau de milho, que vai ser dado para os espíritos. Eles precisam alimentar os espíritos para que a menina se recupere. Do outro lado, tem duas grandes traíras sendo assadas.
A equipe não pode se aproximar da pajelança, porque é um momento íntimo, onde só os pajés e a família podem participar.
A reza é como uma ladainha sem fim. Murmúrios. Repetições. São apelos para os espíritos deixarem a menina viver.
O drama do pai. Ele mesmo leva a comida para o centro da aldeia. E convida todos para fazerem a oferenda aos espíritos.





O pajé estava incorporado, segundo a crença deles. Por isso ele foi o primeiro a se servir. Beiju com peixe.
Os índios acreditam na existência de seres sombrios, Iakayretis, os espíritos do mal. São seres que não sabem rir, nem chorar. Dependendo totalmente dos humanos para receber alimentos durante os rituais.
Mas o pai da menina está inconsolável. Ele se considera culpado pelo estado da filha. Diz que não consegue pescar mais peixes para dividir na aldeia. E é por isso que os espíritos estão furiosos. O erro é dele mesmo, como diz o tradutor.
“Eu mesmo fazer errado. Eu mesmo fazer errado. Não tem peixe. Onde pegar o peixe? Difícil pegar o peixe’, ele falou”, explica o tradutor.
Os peixes estão diminuindo na terra dos Enawenê. E eles atribuem a doença da menina a um castigo dos yakairiti, os espíritos famintos.
Há dois anos, o grande líder Kawali, morreu picado por uma cobra venenosa. Mas os índios acreditam que foi o espírito do mal, que teria guiado a serpente para atacar o cacique. Por isso, qualquer doença é motivo ainda maior de preocupação.
Dois dias depois do começo da pajelança, a situação da pequena Awali piora. Os profissionais de saúde conseguem convencer os índios a levarem a moça para a cidade.
“Enawenê tem uma coisa muito boa. Eles não proíbem a equipe de saúde de trabalhar junto. Nós trabalhamos junto com o pajé. O pajé está fazendo a pajelança e a gente está medicando. Ele não vai falar ‘isso é só espírito e vocês não vão cuidar’. Ele fala, ‘é espírito mas tem doença e vocês vão ajudar’, conta o enfermeiro.
A menina é retirada da casa de palha e levada na rede até o rio. O barco dos agentes de saúde está pronto para partir, levando a pequena Awali, ainda desacordada. A mãe da menina vai junto. Um dos pajés também segue no barco. Começa a viagem de seis horas até Brasnorte, a cidade mais perto da aldeia.
Muita tristeza à beira do rio. O pai da menina não pode deixar a aldeia, porque é o cacique e tem que dirigir o ritual. Só lhe resta, chorar.
A fé manteve estes índios fiéis às suas tradições. Evitou também que os Enawenê-Nawê se relacionassem com o mundo fora da aldeia. “Eles têm um medo, um receio muito grande do que possa vir a acontecer caso eles não sigam as regras que os espíritos estabelecem para eles. Eles não fumam, eles não bebem, eles não comem carne vermelha de nenhuma forma. Pelo fato que o espírito pode vir a puni-los. E não somente um Enawenê, mas toda a sociedade Enawenê”, explica Luiz Carlos Júnior, da Funai.