sábado, 24 de outubro de 2015

Enawenê-Nawê 7/7: Tradição e Independência


Enawenê-Nawê

Índios Enawenê-Nawê querem manter Tradições independentes da Funai


Os Enawenê-Nawê fizeram o primeiro contato com o homem branco em 1974, através de um missionário espanhol. E até hoje, são um dos grupos mais isolados da Amazônia. 
Durante anos, os Enawenê-Nawê viveram isolados. Comendo os frutos da terra. Sem contato com o mundo exterior, nem sabiam fazer parte de um país chamado Brasil.
Em 1974, eles eram menos de 100. Foi quando um missionário espanhol tentou contato com eles.
Maitwá foi o primeiro Enawenê-Nawê a fazer contato com os brancos. Ele estava pescando na margem do rio, ainda era criança quando surgiu o missionário Vicente.
O pequeno Maitwá conta que chegou a chamar os estranhos que vinham pelo rio. Mas depois teve medo e fugiu até a aldeia.
Os estranhos conseguiram seguir os índios pela trilha e assim descobriram onde os Enawenê moravam.
Entre eles, estava o missionário Dom Vicente Cañas, que os índios depois chamariam de Kiwxi.



Dom Vicente Cañas (Kiwxi)

Ele está contando que quando Kiwxi, o missionário, chegou na aldeia, os índios todos saíram, apenas um, que não andava ficou e ficou chorando, com medo do missionário, porque era o primeiro branco que eles estavam vendo.
Mas o missionário ofereceu presentes e os índios só então perceberam que ele não era uma ameaça. A partir deste dia, o missionário passou a morar perto da aldeia.
Hoje muitos atribuem a ele o bom relacionamento que a tribo tem com os brancos. E mais que isso, o fato da população Enawenê ter voltado a crescer. O missionário foi morto em 1987 em meio a conflitos pela demarcação das terras indígenas.
E eles choraram muito, lamentaram muito a morte de Kiwxi, que era o primeiro amigo que eles tinham feito, representando o homem branco do mundo chamado civilizado.
Desde 1974, muita coisa mudou na vida destes índios. Mas eles permanecem entre os mais isolados da Amazônia. Mantêm muitos hábitos antigos e outros difíceis de imaginar.
Os Enawenê não bebem água pura. Dizem que dá dor de barriga. Enawenê-Nawê não gosta de água. A água é sempre adoçada com mel ou então é preparada com milho ou mandioca.
Os Enawenê-Nawê não tomam nenhuma bebida alcoólica ou alucinógena. Eles também não fumam. Ainda não pegaram os vícios dos brancos. Também não tem doença contagiosa. Nem malária, nem dengue. Embora tenha muito mosquito.
Quando vão à cidade, os índios usam roupas comuns, mas o cabelo todos cortam do mesmo jeito. Ou melhor: arrancam. Com as mãos mesmo. Um estilo do cabelo é inconfundível: aparado dos lados e comprido atrás. As sobrancelhas também são sempre raspadas. Os índios adultos ainda usam um adorno de palha no pênis. É um símbolo de masculinidade.
O menino quando vira adulto recebe o ornamento e a partir daí pode participar ativamente dos rituais.
Cada casa da aldeia tem uma entrada na frente e outra atrás. A equipe do Globo Repórter pediu autorização ao chefe do clã para entrar na casa.
Os alimentos são todos armazenados ali mesmo. As espigas de milho e os peixes que foram distribuídos no ritual.
“Estas paredes são todas de palha? ”, pergunta o repórter Francisco José.
“Palha de buriti”, responde o índio.
E elas fazem as divisórias da casa. Aí mora o filho do cacique, do outro lado mora o genro. É sempre uma família em casa divisória.
Genro de cacique também. O sogro dele é o cacique Salomar. Está sempre com seu arco e flechas na mão ele é bem tradicional está sempre com esta cara feia assim, cara de cacique bravo. Mas é uma figura maravilhosa e nós nos entendemos muito bem, apesar de eu não falar o idioma deles nem eles falarem o meu.
“E ele já está aqui com a netinha? ”, pergunta o repórter.
“Este é o meu neto. O nome dele é Kanawalikwa”, conta Salomar.
Todos eles têm nome indígena, nenhum usa nome de branco. João ou Pedro.
Mariquero Sene nos mostra o quarto onde ele vive com a família. Eles dormem em redes de algodão.
Ele conta que, quando alguém morre, a pessoa é enrolada na própria rede e enterrada embaixo do lugar onde dormia. É por isso que para eles o lugar onde vivem hoje e viveram seus antepassados é solo sagrado.
A fé sempre acompanhou os Enawenê. Mas o que fazer diante de tantos desafios daqui para frente? Os Enawenê não querem se tornar dependentes da Funai para manter as suas tradições.
“Talvez a única opção - já que não tem peixe no rio - é eles próprios criarem peixes, para sair da dependência econômica e para eles inserirem isso de forma adequada e que eles possam gerenciar de acordo com os clãs”, afirma o indigenista Fausto Campoli.
O que eles não conseguem entender é porque lugares que eles ocupam até hoje para construir uma barragem, como a do Rio Preto, ficaram fora da demarcação da terra deles. São lugares sagrados para os Enawenê. Os nossos avós, os nossos tataravôs, estão enterrados ali.
Eles reivindicam uma nova demarcação, incluindo as terras do Rio Preto, onde viveram por muito tempo.
A filha do cacique Lolawenakwa-ene, que sofreu uma pancada forte na cabeça e foi levada pelo rio em estado de coma, está de volta à aldeia.
Ela foi transportada desde a cidade de Brasnorte, a 700 quilômetros da capital em avião da secretaria de saúde de Mato Grosso. Ela chegou já com traumatismo craniano. E foi tratada por neurocirurgião.
“Agora está tranquila graças a deus saiu do perigo. Tá de volta à aldeia dela. Sã e salva”, conta o enfermeiro.
Voltou a se dedicar aos afazeres das mulheres Enawenê. Pilando a mandioca para fazer beiju. Sorridente, bem diferente de quando estava doente, sendo alvo da pajelança.
Awaili toma banho de rio, feliz da vida, como todos os jovens desta comunidade indígena tão isolada. Um alívio para o cacique Lolawinakwa, o pai da menina e para toda a aldeia.