domingo, 8 de novembro de 2015

Macuxi: Ritual de Cura & Panela de Barro


Macuxi
Ritual de Cura & Panela de Barro


Macuxi: Ritual de Cura & Panela de Barro

Usada apenas como tempero pela maioria das pessoas, a pimenta malagueta ocupa uma tradicional e respeitada função para índios da etnia Macuxi de Roraima: a de sarar dores de cabeça e dar mais disposição às pessoas. O 'remédio', no entanto, causa arrepios até nos observadores mais 'durões' quando é aplicado nos olhos de quem quer ficar curado durante o ritual da 'Pimenta no Olho', conduzido por um respeitável ancião da comunidade. Já na cerimônia do 'Papî', os indígenas fazem sangrar pernas e braços com uma lâmina para 'eliminar o sangue sujo', aliviar dores e dar mais disposição. 

Em um ritual para 'limpar o sangue', indígenas fazem cortes na pele
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

Os rituais foram feitos durante a segunda edição do Festival da Panela de Barro, ou 'Anna Komanto' Eseru' em Macuxi, ocorrido na Raposa I na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A área fica no município de Normandia, região Noroeste de Roraima, a 216 quilômetros de Boa Vista.
"O único remédio que a gente tinha antigamente para dor de cabeça era a pimenta nos olhos", lembrou Lourival da Silva, de 72 anos. Se comunicando com a ajuda de um tradutor de Macuxi, o senhor responsável pelos rituais contou que para a liturgia é necessário conhecer o método.
"Qualquer pessoa pode passar pelo tratamento, mas só quem pode aplicar são os velhos que sabem. É feita uma reza na pimenta. Ela tem que ser benzida", explicou Lourival. Durante a sangria, após o corte, é aplicada também uma mistura de limão, pimenta e a raiz de uma árvore sobre a pele cortada.
O primeiro ritual realizado no festejo foi o 'Papî'. Com uma lâmina, Lourival fazia quatro riscos superficiais ao longo de cada panturrilha dos participantes. Após o sangue escorrer, o ancião passava a mistura.

Índios Macuxi colocam pimenta malagueta nos olhos em ritual para combater dor de cabeça e dar mais disposição
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

Segundo a estudante Jaiana Pereira, de 13 anos, o corte nas pernas não dói, mas arde. "Quando ele cortou, não doeu. Mas quando passou a mistura e 'bateu' o vento, ardeu. Dizem que o ritual é bom para correr mais rápido".
Em seguida, na cerimônia da pimenta nos olhos, Lourival aplicava uma gota da malagueta benzida na linha d'água dos olhos. No rosto dos indígenas, era possível ver a dor e ardência que iam embora depois de muitas lágrimas em cerca de 15 minutos.

Estímulo aos jovens
O tuxaua da comunidade, Gabriel Sarmento, afirmou que as cerimônias servem para que as crianças e jovens possam conhecer a cultura do seu povo. "Hoje, nós estamos perdendo porque com a internet eles não querem mais saber do parichara [dança típica] e da Areruya [espécie de oração]", lamentou.

O jovem José Valdino afirmou que o festejo é importante para manter a cultura do povo Macuxi viva
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

O objetivo da comunidade deu certo. Das incontáveis pessoas que se dispuseram a participar dos dois rituais, os jovens e crianças eram os mais interessados. Vários alunos da escola localizada na comunidade olhavam curiosos para um costume que muitos viam pela primeira vez.
Um deles, José Valdino, de 19 anos, nasceu e mora na Raposa. Ao ver os rituais sendo feitos, ele escolheu participar do da pimenta nos olhos afirmando que precisava de mais disposição para o trabalho. "Preciso de mais coragem, força e deixar a preguiça de lado. Segundo os antigos, a pimenta nos olhos ajuda nisso".

Panela de barro
Apesar dos rituais que chamam a atenção, o foco do festival é a produção da tradicional panela de barro pelas mulheres Macuxi. A artesã Joana de Souza, de 52 anos, é uma das 15 mulheres que ainda fazem as panelas com a argila colhida na beira das serras.
Joana aprendeu a fazer os utensílios aos 20 anos com uma senhora da comunidade. Ela lembra que com o passar do tempo o processo de produção mudou bastante.
"Antigamente, a mulher tinha que ficar em um quarto sozinha, ninguém podia ver, senão a panela quebrava. Hoje, isso mudou e a forma das panelas foi adaptada para o jeito que os brancos que compram preferem", afirmou.
Mesmo assim, alguns rituais são mantidos na confecção das panelas. Joana explicou que o barro não pode ser colhido em lua nova e que é preciso ter cuidado com o 'olho gordo', pois a panela pode 'não dar certo'.

Rituais aconteceram durante Festival da Panela de Barro, na Raposa Serra do Sol
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

Patrimônio imaterial
O organizador do festival, Enoque Raposo, contou que um dos objetivos da comunidade é virar um ponto de turismo indígena e tornar a panela de barro um 'patrimônio imaterial'.
"A panela de barro está sendo disseminada e a nossa preocupação é que outra pessoa aprenda aqui como fazer e diga que é ela de outro local. Estamos conversando com os órgãos competentes. O primeiro foi o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], e estamos seguindo com o diálogo até conseguir registrar o bem", explicou Enoque.

Indígenas usaram lâmina para fazer cortes
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

Possibilidade de risco à saúde
Sobre a possibilidade de risco à saúde durante o 'Papî', uma vez que os cortes são feitos em várias pessoas com a mesma lâmina, o sociólogo diretor do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Linoberg Almeida, explicou que é preciso entender a cultura que cerca o ritual.



Após o corte uma mistura de limão, pimenta e raiz era aplicada no local
(Foto: Inaê Brandão, G1-RR)

"Nós podemos criticar, mas precisamos entender o que está acontecendo. Compreender todos os elementos que fazem parte do ritual. Em contato com os urbanos, eles [índios] vão acabar assimilando essas questões de higiene, saúde pública e poderão em algum momento parar de fazer a cerimônia. Entretanto, hoje ela é mais cheia de significados para eles do que os riscos que a gente vê com relação à saúde".


Etnia Macuxi



Macuxi: Ritual de Cura & Panela de Barro (versão curta)


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Veja Também:
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Macuxi - Ritual de Cura & Panela de Barro: http://bit.ly/RitualMacuxi
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