quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu Sou Amazônia: Eu sou Liberdade


Eu Sou Amazônia
Eu sou Liberdade

Quilombolas na Amazônia
A Amazônia brasileira também é a casa de muitos quilombolas, descendentes de africanos escravizados. No Pará, fugindo da escravidão, eles construíram estabeleceram suas comunidades e lutaram pelos seus direitos territoriais.

Quilombolas na Amazônia - Como chegamos na região?
A história da Amazônia também conta com a presença de quilombolas. Negros africanos escravizados foram levados para a região do Maranhão e Pará, para trabalharem na produção agrícola, em meados do século XVIII. Perto de Oriximiná (no estado do Pará), muitas fazendas utilizaram mão de obra desses negros que foram escravizados.

Mapa de Jean Baptiste Debret, publicado no livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil.

Quando fugiam dessa condição, os negros entravam nas florestas e subiam o curso dos rios. Ali eles formavam os quilombos.
Quilombo é uma palavra originária do continente africano, podendo ser originária do quimbundo (ki lombo), do umbundo (ochilombo) ou ainda do banto com significância de habitação, acampamento ou “lugar para estar com Deus”.

Quilombolas na Amazônia - Como vivemos ali nos tempos da escravidão?
Os primeiros quilombos foram formados nas cabeceiras dos rios, acima das cachoeiras. Esses lugares são de difícil acesso e protegiam os quilombolas das expedições que pretendiam capturá-los e levá-los de volta ao trabalho escravo. Os rios Trombetas e Erepecuru, e seus afluentes, que estão localizados no município de Oriximiná, abrigaram muitos desses quilombos.

Foto: Rogério Rodrigues

Na época da escravidão, os quilombolas viviam em várias comunidades próximas entre si. Assim, eles construíram uma rede de proteção, o que possibilitava avisar uns aos outros sobre a aproximação de expedições de captura. Quando isso acontecia, a comunidade queimava suas moradias e seguia para outro ponto mais distante.
Nessa região onde os quilombos foram se formando existem até hoje muitos recursos naturais. E a presença destas comunidades ajudou na manutenção das riquezas e do ecossistema. Os quilombolas podiam pescar e caçar, além de praticar o extrativismo da castanha, copaíba, cipó, breu, madeira e remédios naturais.
Mesmo perseguidos, os quilombolas encontraram maneiras de se relacionar com os brancos. Eles levavam parte do que extraíam da floresta para vender em Óbidos e Santarém, as duas principais cidades da época.

Quilombolas na Amazônia - Como vivemos ali depois da escravidão?
Depois da abolição da escravidão no Brasil, em 1888, os quilombolas começaram a descer os rios. Vivendo em liberdade, eles não precisavam mais se preocupar com as expedições de captura. Os seus quilombos passaram a ocupar as margens dos rios Trombetas e Erepecuru.

Foto: Rafael Naldinho
Na foto, o ouriço da castanheira. O ouriço é um fruto duro, com 10 a 21 castanhas em seu interior.
A castanha é uma das principais fontes de renda para os quilombolas.

Continuaram vendendo seus produtos do extrativismo, mas agora para os patrões e para os regatões. Essas pessoas eram grandes comerciantes que circulavam na região com seus barcos e trocavam a produção dos quilombolas por outros materiais. Nessa forma de comércio, os quilombolas trabalhavam sempre em dívida.
Quase um século depois, no final dos anos 1960, e nos anos 1970 e 1980, foram criadas a Reserva Biológica Trombetas e a Floresta Nacional Saracá-Taquera. Neste período, inicia-se também a exploração de bauxita na área.
Tudo isso oprimiu os quilombolas, dificultando que continuassem vivendo sua cultura, de seu modo, impondo proibições a suas práticas tradicionais de extrativismo.

Titulação Coletiva
Somente cem anos depois da abolição da escravidão o governo brasileiro reconheceu o direito dos quilombolas na Constituição Federal de 1988. Em 1989, ocorreu o segundo encontro Raízes Negras, no quilombo Jauari. Esta foi uma oportunidade para os quilombolas discutirem como trabalhariam para que seus direitos fossem respeitados.

Foto: Rogério Rodrigues

Três dias depois do encontro foi criada a ARQMO - Associação das Comunidades Remanescente de Quilombos do Município de Oriximiná. Carlos Printes, Daniel Souza, Neli Reis da Silva, Estevam Bentes, Rodrigues Maciel e Manuel Oliveira, assessorados por Padre Patrício, Padre José Cortez e Lúcia Andrade, estiveram à frente desse movimento.
Pensando sobre o desafio de como usufruir do direito de viver em suas comunidades, surge um movimento pela titulação coletiva das áreas quilombolas. A partir daí a ARQMO vai construindo sua bandeira de luta: reconhecer a propriedade coletiva dos quilombolas de seu território.
A primeira comunidade a receber esse título no Brasil foi a Boa Vista Trombetas, em 1995.

A ARQMO e as Associações Quilombolas
Para serem reconhecidos como donos de suas terras, os quilombolas precisam criar uma associação. É essa associação que recebe o título coletivo.

Foto: Rogério Rodrigues

Atualmente, a ARQMO reúne sete dessas associações. Cinco delas já têm seu território titulado: ACORQAT - Associação, das Comunidades Remanescentes de Quilombos da Área Trombetas; ACRQBV - Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo Boa Vista; ACRQAF - Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo Água Fria; ACORQE – Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos da Área Erepecuru e parte da área da Associação MÃE DOMINGAS Território Alto Trombetas I.
As associações ACRQAT - Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Alto Trombetas II do Município de Oriximiná e ACORQA - Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo Ariramba; além do restante do território reivindicado pela Associação Mãe Domingas, ainda estão no processo de titulação.

Depois da titulação, o trabalho continua: Projetos e fortalecimento das associações
Hoje, a ARQMO continua apoiando a titulação dos territórios quilombolas. A ARQMO também trabalha para que os quilombolas tenham acesso ao ensino superior e desenvolve programas de estágio e de participação, envolvendo jovens e mulheres nas atividades das associações.

Foto: Vanessa Eyng

Um de seus projetos promove iniciativas de mapeamento cultural. Esses dados servem para que a própria comunidade aponte seus locais mais importantes.
Além disso, a ARQMO também vem organizando levantamentos socioeconômicos, que trazem informações para que os quilombolas organizem suas demandas e melhorem sua qualidade de vida.

Em coletivo trabalhamos melhor
O atual trabalho da ARQMO é importante para que as associações fortaleçam seu papel na autogestão dos territórios quilombolas. Existem 36 comunidades nos territórios das sete associações e cerca de 8.000 pessoas vivem na área. E no futuro, as novas gerações também terão ali seu sustento.

Foto: Vanessa Eyng

“Todas as comunidades são minhas comunidades. Eu tenho uma parte de mim em todas elas. É meu povo. São minhas comunidades. Devemos cuidar sempre um do outro” - Dona Zuleide, quilombola moradora da Comunidade Boa Vista.

Participe deste Projeto!
Ajude a Construir o Futuro que nós Queremos!


Nenhum comentário: