terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Filme Jesus na Língua Aikanã


O Filme Jesus na Língua Aikanã


Saiba mais em Jesus Film Project

Aikanã: uma língua do Brasil
ISO 639-3 tba
Nomes alternativos: Corumbiara, Huari, Kasupá, Kolumbiara, Mondé, Tubarão, Uari, Wari
População: 180 (Moore, 2006). População étnica: 260 (Moore, 2006).
Localização: Rondônia, a oeste de Vilhena, perto da rodovia Cuiabá-Porto Velho.
Mapas de idiomas: Brasil central
Status da linguagem: 6b (Ameaçado).
Classificação: Idioma isolado
Dialetos: Masaká (Massaca), Tubarão.
Uso da linguagem: Também usam português [por], na maioria das situações.
Desenvolvimento da linguagem: A alfabetização está em português [por].
Escrevendo: Sem registro escrito [Qaax].
Outros comentários: Corumbiara também pode se referir ao Kanoê [kxo] e ao Mekens [skf]. Mondé também se refere ao Salamãi [mnd] .

Saiba mais em Ethnologue

Introdução
A Terra Indígena em que hoje habita a maioria dos Aikanã não corresponde ao seu território tradicional. Foram levados para lá pelo órgão indigenista em 1970, juntamente com outros dois povos indígenas. Dada a pouca fertilidade do solo, tiravam seu sustento da seringa, mas, devido à queda no preço desse produto, hoje encontram sérias dificuldades em sua reprodução física e cultural. Longe de se resignarem com essa situação, os Aikanã atualmente desenvolvem projetos de valorização cultural e procuram manter viva a língua por meio da formação escolar bilíngue.


Aikanã. Foto: Fabiana Cortez

Localização e demografia
Aikanã é o nome de um dos cerca de quarenta povos indígenas que habitam o estado de Rondônia, principalmente na conhecida região do Guaporé, nas chamadas ‘terras baixas’ da Amazônia. O Rio Guaporé é o principal divisor entre as fronteiras desse estado com a Bolívia.
Em 2005, a maioria dos Aikanã viviam em três aldeias na Terra Indígena Tubarão-Latundê, a eles designada pelo Incra em 1970. Essa área, de terreno arenoso e corroído pela erosão, fica no sudeste do estado de Rondônia, a cerca de 180 km da cidade de Vilhena e em torno de 100 km da fronteira do Brasil com a Bolívia. Os rios mais próximos são o Chupinguaia e o Pimenta Bueno, mas o acesso a eles é grandemente prejudicado. Há ainda muitos Aikanã vivendo em cidades próximas, principalmente Vilhena.
No primeiro contato feito com os Aikanã por esta pesquisadora, em dezembro de 1988, havia um total de 85 indivíduos. Em 2005, os Aikanã somavam cerca de 180 pessoas.


Aikanã. Foto: Fabiana Cortez

História
Segundo informações dadas pelos próprios Aikanã, até à época de sua transferência, eles habitavam ricas terras nas proximidades do Tanaru, um dos rios menores da região, a oeste do Rio Pimenta Bueno.
Ao serem removidos para a atual Terra Indígena, foram levados com eles dois outros povos, ambos de número bastante reduzido, os Koazá (também grafado Kwaza), então conhecidos como Arara, e os Latundê. Vale ressaltar que estes eram povos diferentes, cada um trazendo sua cultura e falando sua própria língua. Em histórias de seus antepassados, os Aikanã descrevem os Koazá como ferozes guerreiros, perigosos feiticeiros e seus inimigos ferrenhos.
Segundo o antropólogo e pesquisador Price (1981), em 1940 o Serviço de Proteção aos Índios abriu um posto de atendimento em Igarapé Cascata, um afluente do Pimenta Bueno, e para lá foram levados vários grupos indígenas, dentre eles os Aikanã. Aí, então, sarampo e fortes gripes causaram a morte de um grande número de indivíduos, deixando esses grupos sensivelmente reduzidos. Tais fatos são confirmados pelos Aikanã mais antigos.
Ao que parece, os primeiros contatos mais estreitos de que se tem notícia entre os Aikanã e a população não indígena foram no início dos anos 1940, por meio do engenheiro geólogo Vitor Dequech, a quem tive a oportunidade de conhecer na década de 1990. Com uma equipe preparada para pesquisa de minérios enviada pelo General Rondon, entre 1941 e 1943, Dequech comandou a Expedição Urucumacuan, que percorreu a região em busca de possíveis jazidas de ouro no rio Pimenta Bueno e seus afluentes. Naquele período, manteve frequentes contatos com os índios da região, inclusive os Aikanã – por ele referidos como “Massacá”, e documentou, com detalhes, todos os contatos e atividades que desenvolveu durante sua viagem. Este contato está registrado em antigos números do Jornal Alto Madeira, publicado naqueles anos em Porto Velho.


Aikanã. Foto: Fabiana Cortez

Nome
Eles se autodenominam Aikanã e chamam sua língua pelo mesmo nome. No entanto, são referidos por outros nomes na literatura existente. A referência mais antiga a eles feita com este nome é de Becker-Donner (1955:275-343, apud Cestmír Loukotka, 1968:163) em que os Aikanã são chamados de “Masaca ou Aicana”. Outro registro interessante é de Erland Nordenskiöld (apud Voort 2000), de 1915. De acordo com Voort, este etnógrafo foi o primeiro pesquisador a fotografar e a registrar a primeira lista de palavras da língua dos Aikanã, aos quais ele chamou de ‘Huari’. Outros nomes que este povo recebeu foram Corumbiara, Kasupá, Mundé e, por fim, Tubarão (Rodrigues, 1986:94).
Apesar das palavras Mundé e Mondé serem comumente usadas como nomes próprios masculinos entre os Aikanã, eles não atribuem significado especial a este vocábulo. Existe um outro nome, Winzankyi, mencionado pelo ex-cacique Luíz Aikanã, que também se referiria ao povo Aikanã. Porém, não há consenso entre eles sobre tal denominação.
Embora o nome deste povo tenha sido grafado na literatura como ‘Aicana’, ‘Aikana’ ou ‘Aikaná’, a pronúncia dos próprios falantes é com a última vogal nasalizada: ‘Aikanã’.
A respeito das denominações dos Aikanã, observe-se que Huari não deve ser confundido com Wari (ou Orowari), que diz respeito aos Pacaás-novos, da família Txapakura. Veja-se também que, apesar da semelhança no registro dos nomes Mundé e Mondé, tais termos não estão aqui associados à família linguística Mondé, do Troco Tupi.


Aikanã. Foto: Fabiana Cortez

Língua e escola
Existe hoje uma escola em cada uma das três aldeias, mantidas pela prefeitura de Vilhena, com professores Aikanã e não-Aikanã. A Profa. Luzia Aikanã, com a assessoria desta pesquisadora, começou o ensino da língua materna em 1992. Desde então, a professora tem participado de vários encontros pedagógicos direcionados para a educação escolar planejada para os povos indígenas da região de Rondônia.
O Aikanã ainda é uma língua não classificada. Até agora não foi possível determinar seu relacionamento genético com outras línguas indígenas brasileiras, mesmo aquelas faladas pelos vizinhos na região do Guaporé. Todos os Aikanã falam o português e alguns falam o Koazá. Mas existem alguns que só falam o português. Um dado interessante é que em duas aldeias os alunos estão sendo alfabetizados, também, em sua língua materna. No entanto, esta é uma língua ameaçada de extinção.
Os filhos dos casamentos com pessoas que não falam Aikanã tendem a falar a língua nacional, o que constitui um elemento de pressão para o abandono da própria língua. Além disso, aqueles que saem de suas aldeias em busca de melhoria de condições de vida são também obrigados a falar a língua portuguesa.
Uma análise segmental da fonologia desta língua mostra que ela tem dezesseis consoantes e dez vogais, das quais seis são orais e quatro nasais. Dentre as características morfológicas incomuns exibidas pelo Aikanã, destacam-se os classificadores. Estes são morfemas encaixados dentro de uma construção verbal com a finalidade de fornecer informações sobre aspectos semânticos do argumento do verbo, como por exemplo, tamanho, forma, consistência e outras que tais.


Aikanã. Foto: Fabiana Cortez

Aspectos culturais
Um interessante mito mencionado pelos Aikanã é o do Kiantô. Trata-se de uma grande cobra com as cores do arco-íris. Segundo este mito, assim como existe um reino na Terra com todos os seus habitantes, existe também o reino das águas com seus próprios habitantes, presidido pelo Kiantô.
Outro mito é o do “Dia em que o sol morreu” (ya imeen). Nesse dia, as pessoas que não estiverem em suas próprias casas podem ser atacadas pelos espíritos da floresta. A ‘morte do sol (ya) ’ ocorre quando há um eclipse total: ‘o sol morre e o mundo fica todo escuro’.


Aikanã. Oca tradicional

Atualmente, é extremamente raro algum tipo de celebração entre os Aikanã. Em uma festa que assisti, fizeram chicha, cantaram suas músicas e, em local reservado, escondido das mulheres, os homens tocaram suas músicas em grandes flautas de bambu.
O Aikanã mais antigo do grupo tem mais de 80 anos e produz arcos e flechas tradicionais destinados a várias finalidades. Segundo ele, flecha para alvejar pessoas, flecha para alvejar animais maiores e menores, dentro e fora d’água. Os artesanatos fabricados e vendidos hoje são brincos, pulseiras, colares, bolsas, anéis e alguns objetos de madeira.


Aikanã. Festa da Menina Moça.



Participe deste Projeto!
Ajude a Construir o Futuro que nós Queremos!

Nenhum comentário: