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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

End of the Spear - Terra Selvagem: Waodani


End of the Spear
Na ponta da Lança 



        
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"End of the Spear" é uma adaptação para o cinema de uma história verdadeira que se desdobrou em 1956, quando missionários evangélicos americanos foram cruelmente assassinados na selva amazônica por indígenas da etnia Waodani. 




Acima, missionários americanos assassinados



As viúvas dos missionários se mudaram para a região e passaram a viver com os Waodani, o que significou uma mudança de mentalidade na vida dos indígenas, que acabaram abandonando a violência que, por tanto tempo, os caracterizava.




Acima, viúvas e filhos dos missionários assassinados


A versão brasileira do filme “End of the Spear” é “Terra Selvagem”

“Terra Selvagem” é um filme originário dos EUA, baseado em fatos reais que ocorreram no Equador. A longa metragem mostra o encontro de cinco missionários cristãos com indígenas da etnia Wadani do Equador. Essa tribo segundo o filme era conhecida pela extrema violência que empregava aos seus inimigos, os quais poderiam ser de tribos rivais ou estrangeiros (os missionários cristãos-por exemplo). Os Wadani utilizavam-se desses meios violentos, para punir todos aqueles que ousassem invadir seus territórios.




Acima, matéria veiculada pela revista Life

A história é narrada pelo filho (Steve Saint) de um dos missionários assassinados (Nate Saint) e inicia-se com o violento encontro entre a tribo Wadani e outra tribo rival, o que resultou na separação de duas crianças indígenas Wadani: Mincayani (futuro líder da tribo) e Dayumae (refugiou-se com os brancos). A sequência é marcada pela violenta liderança de Mincayani e a preparação dos missionários para o contato com a tribo. É interessante ressaltar a relação de Nate Saint (missionário) com seu filho Steve, esse último sempre preocupado com seu pai, porém, admirando sua coragem




Acima, foto tirada pouco antes da morte dos missionários

O encontro entre os Wadani e os missionários foi um desastre; motivado por informações falsas fornecidas pelos próprios membros da tribo, Mincayani, lidera seus guerreiros incluindo mulheres, assassinando os “estrangeiros canibais”. Após o baque inicial as esposas dos missionários e seus filhos entraram em contato com a tribo, instalando uma espécie de acampamento, para isso contaram com a ajuda de Dayumae e Kimo (guerreiro Wadani), o que revoltou profundamente Mincayani. Após um determinado tempo de convívio marcado pela desconfiança, “as missionárias” com ênfase para a atuação de Rachel Saint (tia de Steve Saint), conseguem uma relação amigável com os Wadani, inclusive com o até então irredutível, Mincayani.




Acima, Rachel Saint com guerreiros Wadani 

A parte final do filme mostra toda a comoção da tribo com a morte da missionária Rachel e a volta do agora adulto Steve, este, é convidado por Kimo a morar com os Wadani e continuar o trabalho de sua tia. Com a negativa de Steve, Mincayani tenta convencê-lo, e para isso o leva ao lugar onde ocorreu o assassinato dos missionários, inclusive de seu pai. Após revelar que matou Nate, o líder Wadani revela que o viu “pular a grande jiboia” (espécie de experiência sobrenatural que um indivíduo “especial” presencia mediante a morte) ainda vivo. Também conforme a tradição Wadani, o filho tem o dever de vingar a morte do pai, então Mincayani ordena que Steve o mate, no entanto este último responde: “ninguém tirou a vida de meu pai, ele a entregou”.




Acima, cena do filme End of the Spear

Como o filme é cristão, os missionários são retratados como mártires e os índios, selvagens, que no final são domados, ou melhor, levados ao convívio com o cristianismo. A última cena do filme é um exemplo disso, mostrando o então temível Mincayani reconhecendo a importância da ação missionária. Essa cena é de certa forma a culminância de toda a história do filme (missionários destemidos que são capazes de enfrentar a própria morte pelo evangelho), portanto a manteria, uma vez que, se Steve assassinasse Mincayani ele contrariaria tudo aquilo que seu pai acreditava, ou seja, a última cena é a consequência de toda trama e acredito que não poderia ser diferente.




Acima, Steve Saint com Mincayani e seu grupo




Entrevista com Steve ao lado de Mincayani, o assassino de seu pai

UEMA - Universidade Estadual do Maranhão
PDR - Programa Darcy Ribeiro
Disciplina – América Colonial
Aluna – Queila dos Santos Ribeiro
Resumo do Filme: Terra Selvagem



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

São Gabriel lidera em casos de suicídios de índios


São Gabriel lidera em casos de suicídios de índios.

Município do Amazonas tem taxa dez vezes maior que a média nacional.


Quinta-feira 9 de outubro de 2014 - AM

Em São Gabriel, consumo de bebida alcoólica é grande entre os índios e apontado como uma das causas de suicídios. 




Manaus - São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas (a 865 quilômetros de Manaus em linha reta), lidera o ranking de suicídios de índios no Brasil. Entre os mais de cinco mil municípios brasileiros, São Gabriel da Cachoeira ficou na primeira posição.
Entre 2008 e 2012, a taxa foi de 50 casos por 100 mil habitantes, dez vezes maior do que a média brasileira, de 5,3 suicídios por 100 mil habitantes, no período, segundo o Mapa da Violência.
Nas cidades com população indígena, a taxa sobe para 30 mortes. Em São Gabriel, entre os que se mataram de 2008 a 2012, 93% eram índios.
Oito entre dez se enforcaram. O suicídio por ingestão de timbó, raiz venenosa que causa sufocamento, foi o segundo método mais usado.
“O que está acontecendo é um verdadeiro extermínio destas populações”, afirma o médico Carlos Felipe D’Oliveira, da Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio.




Foto: Evandro Seixas

No Amazonas, Roraima, Acre e Tocantins, os suicídios passaram de 390, em 2002, para 693, em 2012: aumento de 77,7%.  “Normalmente, o que vemos é que os locais com maior taxa de suicídio de índios são justamente aqueles mais desassistidos, com alto índice de desemprego, uso de álcool, drogas e muito conflito”, afirma D’Oliveira.
Dados oficiais da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) registram 73 casos de suicídio de indígenas só em Mato Grosso do Sul, em 2013 – o maior índice em 28 anos. Dos 73 indígenas mortos, 72 eram do povo Guarani-Kaiowá.
Segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 havia um total de 821,5 mil indígenas, o que representa 0,4% da população do País. O suicídio indígena representa 1% da população de índios.
No Amazonas, onde a população indígena representa 4,9% dos habitantes no País, 20,9% dos suicídios ocorre entre indígenas. Em Mato Grosso do Sul, a taxa é ainda mais preocupante. Pelo Censo de 2010, eles são 2,9% da população, mas respondem por 19,9% nos suicídios.





Nos últimos dez anos, o Amazonas foi onde o suicídio de jovens mais cresceu (134%). Os índios representam 4,9% da população do Estado e 20,9% dos suicídios envolveram indígenas.
Os altos índices de mortes foram discutidos no Fórum Brasileiro sobre Suicídio, em Brasília. Em janeiro de 2015, a Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio encaminhará uma minuta à Comissão de Seguridade e Família do Congresso Nacional pedindo ações de prevenção. A intenção é criar políticas públicas para reduzir a incidência de suicídios.



Suicídio de índios no Brasil chega a ser seis vezes maior do que taxa nacional

Por Maria Fernanda Ziegler 08/10/2014


Facebook/Reprodução

De acordo com o estudo, alguns dos municípios que aparecem no topo da lista de mortalidade suicida são locais de assentamento de comunidades indígenas, como São Gabriel da Cachoeira (AM), São Paulo de Olivença (AM) e Tabatinga (AM), Amambai (MS) Paranhos (MS) e Dourados (MS).
De acordo com o antropólogo Spensy Pimentel, que estuda a cultura dos índios Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul, a tragédia referente ao suicídio indígena no Brasil não é recente. “Isso já acontece há mais de 30 anos. A questão nunca cessou. O tema só está vindo mais à tona por causa de maior transparência dos órgãos”, disse. De fato, os dados mostram que o problema não é de hoje. De 2000 a 2013, só no Estado de Mato Grosso do Sul foram registrados 659 casos de suicídio de indígenas.
O antropólogo ressalta que os suicídios como epidemia começam quando o processo de confinamento dos Guarani-kaiowá se conclui, no final dos anos de 1970. “Individualmente, o suicídio tem as mais variadas motivações. Mas, na maioria das vezes, os pequenos conflitos familiares que levam um jovem a tomar a decisão de tirar a vida estão relacionados à falta de terras”, disse.


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sábado, 2 de agosto de 2014

Índios isolados e o despreparo da Funai




Índios isolados e o despreparo da Funai


Vídeo 1

Vídeo 2


Versão FUNAI

Faz um mês nesta terça-feira (29) que um povo indígena isolado estabeleceu o primeiro contato com indígenas da etnia ashaninka e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, no Estado do Acre, na região de fronteira do Brasil com o Peru.
Os grupos de índios isolados da região, que entre si se envolvem em conflitos armados, buscam proteção no lado brasileiro porque estão sendo massacrados por narcotraficantes e madeireiros peruanos.
Terra Magazine, em maio de 2008, mostrou ao mundo (veja) as primeiras imagens de um dos grupos de índios isolados que vivem na região, fotografado durante sobrevoo coordenado pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que chefiava a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) da Funai. Dessa vez, o Blog da Amazônia obteve com exclusividade o vídeo inédito do primeiro contato, fotos e o relatório de campo da equipe da Funai.
Há mais de dois anos a FPE foi invadida por peruanos, os servidores da Funai bateram em retirada e desde então foi abandonada pelo governo brasileiro. O pessoal da FPE acompanhava a aproximação dos índios isolados desde o dia 13 de junho. O sertanista José Carlos Meirelles, que atualmente trabalha na Assessoria Indígena do Governo do Acre, tem participado dos contatos.
O primeiro contato com os índios isolados, sem auxílio de intérprete, foi estabelecido pelo índio Fernando Kampa de forma pacífica. Os ashaninka da Aldeia Simpatia se aproximaram e os isolados gesticulavam pedindo a calça de um servidor da Funai, que se aproximou juntamente com os ashaninka apenas de cueca.




- Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato. No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também uma mulher com um saiote, possivelmente feito de envira, e com uma criança de aproximadamente cinco anos. A mulher entregou um jabuti ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas – diz o relatório de campo da equipe da Funai.
Após o primeiro contato, de acordo o relatório, o indígena Fernando Kampa pediu que os ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia. “Mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos ashaninka”. Segundo o relatório, as roupas estavam sujas, possivelmente com escarros, doenças sexualmente transmissíveis, que podem ter contaminado os isolados.
O fato é que o grupo de índios isolados contraiu gripe e se deslocou junto com a equipe da Funai para a base da FPE Xinane. O grupo foi convencido a permanecer na aldeia até que fosse encerrado o atendimento médico pela equipe mobilizada pelo geógrafo Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai em Brasília.

 

Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes de seu povo. De acordo com informações dos intérpretes que integram a equipe da Funai, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico pano.
A equipe da Funai encontrou uma pequena bolsa na qual os índios isolados carregavam cachimbo, camisas, caixa de fósforo peruano, embalagens de sabão peruano, uma carteira do Corinthians enrolada com pedaços de fios coloridos e com um pote contendo um líquido, provavelmente um anticoagulante que é aplicado na ponta das flechas. Havia também cartucho calibre 32, pólvora preta (marca Jacaré), uma espoleta, pacote vazio de sal (marca Caiçara), caucho (sernambi), três lâmpadas incandescentes, parafusos e porcas, que os isolados usam para carregar cartuchos da espingarda. O material foi todo devolvidos aos isolados.

 

Os índios isolados, que prometeram regressar com familiares no prazo de luas -mais ou menos no começo de setembro-, neste domingo (27) decidiram antecipar. Um grupo de oito isolados se estabeleceu na Aldeia Simpatia, incluindo uma criança.
O índio Zé Correia, da etnia jamináwa, chamado pela Funai como intérprete, contou que os índios isolados preferiram não se identificar porque temem ser alvos de novas correrias (matança organizada de índios) por parte de outros grupos indígenas isolados.
- Mas a situação mais grave envolve os narcotraficantes e madeireiros peruanos. A maioria desse grupo contatado é de jovens. A maioria dos velhos foi massacrada pelos brancos peruanos, que atiram e tocam fogo nas casas dos isolados. Eles disseram que muitos velhos morreram e chegaram enterrar até três pessoas numa cova só. Disseram que morreu tanta gente que não deram conta de enterrar todos e os corpos foram comidos pelos urubus. Nosso povo jamináwa compreende a língua dos isolados e nós vamos acompanhar. O governo brasileiro precisa fazer algo para defender esses povos. Eles disseram que existem outros cinco povos isolados na região e que são grupos bastante numerosos. Apesar das diferenças e dos conflitos que existem entre esses grupos, todos são perseguidos pelos brancos peruanos. Qualquer dia todos esses povos podem procurar o Brasil em busca de proteção. A Frente de Proteção Etnoambiental da Funai precisa de total apoio.  Vai ser impossível se fazer algo apenas com as mãos e as unhas. Não podemos ser cúmplices de genocídios – apelou Correia.

 
Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, com o indígena Zé Correia, que colaborou no contato como tradutor

A equipe da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, entre os dias 17 e 30 de junho, produziu um relatório preliminar de campo denominado “Desenvolvimento das atividades Aldeia Simpatia”.  Veja o que foi relatado sobre o que aconteceu na aldeia nos dias 29 e 30 de junho:

29/06/2014 – domingo
Durante todo o dia ocorreu a tradicional caiçumada dos Ashaninka e no final da tarde, por volta das 16:00, o téc. em enfermagem, Francimar Kaxinawa, retornou às pressas de seu banho no rio e informou a equipe da FUNAI (Marcelo Torres) que os isolados estavam gritando no barranco à margem oposta da praia da aldeia Simpatia.
Outras crianças Ashaninka também ouviram e chamaram rapidamente os adultos que estavam na caiçumada. Neste momento, os indígenas Ashaninka seguiram correndo pela praia até chegarem próximos aos isolados, liderados pelo indígena Fernando Kampa. Todos os Ashaninka aparentavam estar bêbados e bastante alterados.
Um dos indígenas da aldeia Simpatia, Gilberto Kampa, havia subido o rio pouco tempo antes para arrancar macaxeira e após ver os isolados ficou ilhado no roçado. Sua esposa veio até a aldeia chorando e pediu para que fossemos busca-lo. Além de Gilberto, estavam com ele 2 de seus filhos com idade entre 3 e 5 anos.
Os isolados gritavam e gesticulavam, onde foi possível ouvir nitidamente a palavra “camisa” e batendo na barriga como quisessem dizer que estavam com fome. No momento da aparição, estava presente apenas o servidor Marcelo Torres da FUNAI e sendo que Meirelles, Artur e Guilherme estavam mais abaixo no rio Envira pescando.
Não foi possível conter os Ashaninka para aproximação com o grupo isolado, que a princípio se apresentou com 4 índios, os mesmos avistados na BAPE Xinane. Seguiam portando 1 espingarda e os demais com arcos e flechas.
Os Kampa se aproximavam mais e os isolados gesticulavam pedindo a calça do servidor Marcelo Torres, que se aproximou juntamente com os Kampa sem a calça, apenas de cueca. Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato.
No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também 1 mulher com um saiote possivelmente feito de envira e com 1 criança de aproximadamente 5 anos. A mulher entregou um jabuti que foi entregue ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas.
Após este contato, o indígena Fernando Kampa pediu que os Ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia, onde mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos Ashaninka. As roupas dadas estavam sujas, possivelmente com escarros, DST’s, etc., que podem ter contaminado os isolados.
Na chegando a praia da aldeia Simpatia, também havia acabado de chegar os servidores Artur e Guilherme, juntamente com Meirelles. A equipe tentou conter os isolados e os Kampa que chegaram a ligar o motor do barco da FUNAI para buscar o indígena Gilberto Kampa no roçado, mas foi praticamente impossível até que Fernando Kampa foi contido após ríspida discussão com a equipe da FUNAI.
Chegaram a aldeia apenas 3 dos índios isolados e os demais permaneciam no barranco à margem contrária. O indígena Fernando Kampa pediu para sua esposa trouxesse caiçuma para os isolados e ao chegar na praia, o servidor Marcelo Torres orientou ao médico da equipe de saúde, Neuber, que chutasse a cuia impedindo que a bebida chegasse até os isolados.
Após este momento, os índios começaram a subir para a aldeia e saquear as casas dos Ashaninka que permaneciam passivos, bêbados, sem qualquer espécie de reação. Foi preciso que a equipe da FUNAI intervisse e impedisse que todas as casas fossem saqueadas. Meirelles precisou ser mais ríspido para que um dos isolados deixasse parte do que iria saquear no chão. Quando eram mostradas armas, os isolados se mostravam extremamente nervosos e agitados, gritando “Shara”.
Depois deste momento de saque, a equipe da FUNAI conseguiu conter um pouco os isolados e os acalmar, sendo possível ver os isolados arremedando animais da mata e também cantando. O servidor Guilherme tentou realizar o contato urgente com Brasília e Rio Branco e não obteve resposta.
A equipe seguiu conversando e tentando manter contato com os isolados para acalmá-los, mas em determinado momento, o grupo isolado ouviu um arremedo de nambu azul vindo da mata próxima ao Igarapé Simpatia e se agitaram, gesticulando como se tivessem sido flechados.
Com o cair da noite tornou-se ainda mais difícil conter o grupo e novos saques foram realizados nas casas dos Ashaninka. Pouco tempo depois, chega a aldeia Simpatia pela mata o indígena Gilberto Kampa com seus filhos, assustado e informando que haviam outros índios escondidos na região do roçado.
Na tentativa dos servidores de conter os saques, os mesmos eram ameaçados com flechas. A equipe tentou fazer uma fogueira e sentar com os isolados, mas pouco depois o grupo de isolados desceu e saiu correndo pela praia no sentido do barranco onde estavam os demais índios.
Após o contato e a saída dos índios, as equipes da FUNAI e da Saúde realizaram escala de vigília durante a noite em caso de nova investida dos isolados. Durante o período da noite e madrugada, apesar da vigília, os isolados cortaram todas as cordas das ubás e afundaram uma das voadeiras da FUNAI com motor.


30/06/2014 – segunda-feira
Por volta das 7:00, os Ashaninka que tinham descido na praia do simpatia nos informaram que os índios isolados estavam descendo novamente rumo a aldeia, descemos na praia e montamos um esquema para impedir que eles subissem novamente para realizar saques. Uma equipe ficou na frente e outra com espingardas atrás. Orientamos que ninguém ficasse sozinho frente aos isolados, mantendo sempre um número maior que eles. Eles utilizaram a ubá do Gilberto Kampa (tinha deixado no rocado) para atravessarem o rio.
Atravessaram o rio Envira e deixaram a ubá na praia localizada acima da aldeia. Estavam em 04 pessoas. Eles se deslocaram pelo rio até a praia.
Ao chegarem à praia da aldeia Simpatia já foram logo pedindo coisas, tipo camisas e panelas.  Não foi fornecido. A equipe da FUNAI manteve um diálogo através de gestos calmo e tranquilo. Eles subiram o barranco, mas foram contidos antes de entrarem na aldeia. Qualquer investida era contida mostrando as armas, o que os deixavam bastantes nervosos. Meirelles tinha esse papel de impedir a entrada deles, quando tentavam entrar na aldeia ele gritava, assoprava e mostrava a arma.
Foi tentado realizar trocas com os isolados, do tipo mostrávamos um terçado e pedíamos uma flecha, mostrávamos artesanatos (eles demonstravam grande interesse) e pedíamos algum ornamento deles, mas nenhuma troca obteve sucesso.
Ao perceberem que não obteriam sucesso nos saques, pediram algo para comer, foi dada banana, macaxeira cozida, coco e carne assada, sendo que só comeram as bananas. Desconfiavam de tudo que dávamos para eles comerem. Eles abriram os cocos, tomaram um pouco da água e deram o restante para a equipe que ficou a frente na contensão.
Num certo momento o servidor Artur fez um cigarro de tabaco e acendeu em frente aos isolados, eles ficaram bem exaltados e pediram o tabaco e o isqueiro. O tabaco foi fornecido, eles pegaram, cheiraram e pediram para que Artur desse o cigarro feito. Artur forneceu o cigarro, eles deram algumas puxadas e guardaram para mais tarde. Artur tentou trocar o isqueiro por uma flecha, mas os isolados não quiseram.
Fernando Kampa apareceu num certo momento tirando algumas fotos bem de perto, ao bobiar por um minuto, estava mostrando o funcionamento do isqueiro, um isolado tirou a câmera do Fernando que estava no bolso e foi embora.
Ao perceberem que não obteriam sucesso nos produtos industrializados resolveram ir embora. O tempo de permanência foi de 1:30 h no barranco da aldeia Simpatia. Ao sair um indígena isolado espirrou, ao entrar no rio o mesmo deu uma tossida.


IVANA BENTES: É necessário amansar os brancos
Documento de cultura, documento de barbárie é a primeira coisa que vem à cabeça vendo os relatos dos indigenistas e agentes que participaram dos contatos com os índios isolados do Acre.
A própria forma de percebê-los ganha materialidade nos confrontos com o Estado: avistamentos, vestígios, confrontos armados, mortes dos “isolados”, mortes dos moradores brancos, conflitos com narcotraficantes, etc.
O que acontece depois do contato? Muitos vão morrer pela simples proximidade e contágio com as gripes e doenças corriqueiras dos brancos. Como se preparar para o encontro, que estratégias, qual o melhor momento? É sintomático que os contatos se intensifiquem quando as terras indígenas são comprimidas, pelo desmatamento, pressão de madeireiros, mineradoras, prospecção de petróleo, tráfico de drogas, missionários.
Os índios isolados “fazem contato” numa situação crítica, como disse o antropólogo Terri Aquino. Índios “isolados” de quem? Não somos isolados, bravos, invisíveis, cercados, somos resistentes. Vocês não acham a gente, índio já está ali desde sempre, é como o jabuti na floresta, ninguém acha o jabuti, só encontra quando ele está passando disse o indígena jaminawá Zé Correia na sessão emocionante de apresentação das imagens inéditas do contato com os “índios isolados” mostradas pela Funai durante 66ª Reunião Anual da SBPC, no Acre.
Correia acompanhou os primeiros contatos da Funai na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, na região do Acre de fronteira do Brasil com o Peru. O depoimento continua dizendo: “Os Índios não são ‘isolados’ são livres e circulam porque não sabem dessas fronteiras que os brancos inventaram, não tem indígena do Peru, do Brasil, da Bolívia, nós somos o mesmo povo. Não queremos ser mandados, queremos ser parceiros da FUNAI para ajudar os parentes isolados.”
No vídeo apresentando vemos as imagens de garotos indígenas muito jovens no primeiro encontro, tenso e com um misto de celebração e desespero dos agentes do encontro: “papa não, não pode! No, no, no! Panela, não! Não, tem doença!” quando pegam uma muda de roupa. A aproximação pelo oferecimento de comida.
O interesse dos indígenas pelos terçados, machados e também gestos de impaciência com as reprimendas e ansiedade dos brancos. O Estado brasileiro (ou qualquer estado) está preparado?
A missão foi exitosa, diz Carlos Travassos, mas as condições precárias da Funai, a burocracia, a dificuldade em trabalhar em cooperação entre Brasil, Peru, Bolívia, os desafios da Pan Amazônia se impõem.
Numa infinita remediação de um campo e uma situação que precisa de atenção mais do que urgente e que sofre retrocessos constantes. “Só queremos viver” disse um dos indígenas.
Foi uma sessão emocionante com antropólogos, estudantes, agentes da Funai, e indígenas na SBPC em Rio Branco - Acre.
Ouvimos os relatos do antropólogo Terri Aquino, do indígena Jaminawá José Correia, do antropólogo de Porto Maldonado, no Peru, Alfredo Gárcia Altamirano, de Carlos Travasso, da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai e de outros indígenas da região.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ  



Pontos salientes e reflexões pessoais:
1. A indignação dos indígenas com a presença dos fanfarrões da FUNAI é mais do que óbvia. É preciso muito maior disciplina, entendimento, respeito e consideração. Não há lugar para crianças nas relações com este povo.
2. A falta de um tradutor que possa realmente ajudar com a comunicação é evidente. A pessoa que designaram teve um papel importante, porém com o mínimo ou nenhum sucesso no entendimento do que falava os indígenas.
3. A ideia de oferecer cachos de banana como sinal de amizade aos proprietários das bananas foi uma atitude simplesmente ridícula por parte desse pessoal. Esta atitude grosseira e zombeteira (para os índios) só serviu para irritá-los ainda mais.
4. A resposta ao “quem vocês pensam que são para irem entrando aqui!”, facilmente identificável nas cenas da discussão, foi totalmente insatisfatória. Os indígenas exigiram a saída imediata dos invasores e foram obrigados a gesticular ao “intérprete” a fim de que compreendesse que toda a extensão da terra (e do rio) onde literalmente estavam pisando é terra indígena.
5. Como forma de indenização pelo insulto, já que isso não foi feito pelos invasores, os indígenas demonstraram que são gente de dignidade e não deixaram passar em branco: mesmo sob “protesto branco” tomaram posse de um terçado e um machado, criteriosamente selecionados entre as opções ao alcance, antes de deixar a base.
6. A falta de preparo da FUNAI ao selecionar tais pessoas para o trabalho de proteção aos indígenas não poderia ser maior, e como diz o sertanista: foi por um triz!
7. Processar o Estado por crimes contra a humanidade seria algo digno a se fazer neste momento, já que não desistirá de permitir o trânsito de narcotraficantes, madeireiros e etc.... que possam naturalmente fazer o serviço sujo de expulsá-los ou executá-los a fim de garantir posterior exploração dos recursos naturais disponíveis na área.
O resumo que faço desta ópera é que não faltam apenas recursos materiais e legislativos para a proteção dos indígenas, mas também de entendimento e compreensão acerca dos valores e cosmovisão deste povo. Poderíamos começar perguntando-nos a nós mesmos se é vontade deles que sejam estudados, contatados, beneficiados ou mesmo protegidos por brancos ou outra etnia. Será que desejam ou necessitam de fato da presença da FUNAI, do ISA, do CIMI, etc....? E se no íntimo de cada um deles houver apenas aquela vontade comum a todos nós em compreender quem são, de onde vem e para onde vão? E se estiverem procurando somente pela presença de DEUS? Quem tem a dignidade necessária para suprir-lhes esse desejo?

Projeto Luz e Vida: Missão Amazônia