segunda-feira, 29 de julho de 2019

Artigo: RDS do Tupé (Toda Hora)

Turismo Indígena
Regulamentação da RDS do Tupé

A partir de agora, só poderão levar turistas à RDS as operadoras que tenham cadastro e autorização. Deverão ser respeitadas as tradições dos povos expressas nas apresentações de rituais, musicalidade, vestimenta e modo de vida indígena.
O trabalho faz parte da mobilização em torno do ordenamento da atividade turística dos núcleos indígenas na região do Baixo rio Negro

Foto: Mario Oliveira/Semcom

A atividade turística desenvolvida pelos indígenas residentes na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé passa a ser regulamentada e a cumprir regras estipuladas pela Prefeitura de Manaus, por meio do Conselho Deliberativo da RDS, formado por representantes das seis comunidades que integram a reserva, incluindo núcleos indígenas e órgãos como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Fundação Municipal de Cultura Turismo e Eventos (Manauscult), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  
A partir de agora, só poderão levar turistas à RDS as operadoras que tenham cadastro de prestadores de serviços turísticos (Cadastur) do Ministério do Turismo e autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), órgão gestor da RDS do Tupé. 
Normas
Publicada na edição nº 4646/2019, do Diário Oficial do Município (DOM), do último dia 25/7, a Resolução 01/2019, do Conselho Deliberativo da RDS, estabelece condições para que os prestadores de serviços turísticos possam atuar. Deverão ser respeitadas as tradições dos povos expressas nas apresentações de rituais, musicalidade, vestimenta e modo de vida indígena. 
A cobrança de valores será feita mediante acordo entre as lideranças indígenas, que servirá de parâmetro para todos os núcleos. O documento estabelece ainda a meia-entrada para estudantes e tempo mínimo de apresentação dos rituais de 30 minutos. Também proíbe o uso de bebidas alcoólicas, drogas ilícitas, exposição e utilização de animais silvestres e o acesso de visitantes às áreas de moradia e os locais sagrados sem autorização.
O trabalho faz parte da mobilização em torno do ordenamento da atividade turística dos núcleos indígenas na região do Baixo rio Negro, coordenado pelo Ministério Público Federal (MPF-AM). Desde o ano passado, esse tema vem sendo discutido em nível de conselho gestor da RDS, com o apoio da Prefeitura de Manaus, visando a criação de um regulamento de uso público do território da reserva pelos indígenas. 
“A vocação da RDS do Tupé é turística e a orientação do prefeito Arthur Virgílio Neto é a de que façamos todos os esforços necessários para o desenvolvimento da atividade de modo sustentável, não só em relação aos indígenas, como também às populações ribeirinhas”, explica o secretário municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Antonio Nelson de Oliveira Júnior. 
Atualmente, dois núcleos indígenas se destacam no receptivo de turistas na reserva - Tatuyo, Tuiúca e Dessana, residentes na comunidade São João do Tupé. Mas existem representantes de diversas outras etnias espalhadas pelas demais comunidades que integram a RDS. 
“As regras valerão para todos os povos que habitam a reserva e visam contribuir para a integridade dos ecossistemas existentes na área, a integridade física dos visitantes e das populações residentes, a valorização cultural desses povos, bem como apoiar a geração de trabalho e renda por meio do turismo sustentável”, afirma o diretor de Áreas Protegidas da Semmas, Márcio Bentes.
Segundo ele, o ordenamento turístico permitirá aos órgãos gestores ter um grau de controle sobre os impactos da atividade nas áreas onde existem núcleos indígenas. “O objetivo é ordenar, acompanhar e apoiar para que a atividade turística seja feita de maneira adequada e que todas as populações que residem no território possam ser contempladas”, complementa.
29 de julho de 2019 às 17:39

Texto originalmente publicado por TodaHora.com sob o título "Prefeitura de Manaus regulamenta turismo indígena na RDS do Tupé"

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Podcast: Os Profetas de Israel (Estadão)

Os Profetas de Israel
Podcast com Carlos Alberto Contieri, Francisco Moreno e Suzana Chwarts




Entre muçulmanos, cristãos e judeus, cerca de dois terços da população mundial é devota ao Deus de Israel. 
E nunca – salvo talvez em Jesus – ele falou tanto em primeira pessoa quanto pela boca dos profetas. Maomé se considerava o último, e seus fiéis, o maior. Cristo foi tomado por profeta, ainda que para muitos, falso. Ele mesmo dizia ter vindo para levar a missão dos profetas à perfeição e viu em João Batista o retorno do profeta Elias, com o qual aliás, segundo Mateus, Marcos e Lucas, conversou num instante de transfiguração junto a Moisés e seu Pai acerca do seu destino e do de Jerusalém.
Dentre os 48 profetas e sete profetisas consagrados pelos judeus, Elias é a figura tipicamente folclórica do pregador, reformista e milagreiro errante.
Muito antes, o pai da raça, Abraão; Moisés, arquétipo dos profetas e também dos sacerdotes e reis; Samuel, vidente e juiz que institucionalizou o profetismo e a monarquia sobre as tribos de Israel; e logo depois poetas como Isaías e Ezequiel. Foram algumas das pessoas mais perturbadoras (e por vezes perturbadas) que já viveram.
Em nome de Deus, Oséias se casou com uma prostituta, Elias massacrou 450 sacerdotes pagãos, e Eliseu, invocando duas ursas, trucidou 42 garotos por tirarem sarro de sua careca. Jeremias tinha traços paranoicos. O espúrio Jonas fugiu de Deus e foi engolido por uma baleia. Todos sofrerama ira de YAHWEH contra a infidelidade de seu povo, acusaram esta ira e por isso sofreram a ira do povo.

Como Moisés, o profeta deve mediar os dois lados: “deve se deixar inflamar pela chama da ira de Deus contra o povo”, dizia o teólogo von Balthasar, mas “como aquele que incorpora essa ira, deve ‘se voltar a Deus’, confessar o pecado e oferecer a si mesmo para uma autoimolação na qual a ira e o pecado se tornam um.” Deste “Eu” dilacerado na luta entre Deus e seu povo muitos exegetas viram surgir não só obras primas como o Livro das Lamentações ou o de Jó, mas, pela primeira vez na história, a noção de “indivíduo.” O Deus dos profetas é único, imutável, onipotente; prefere obediência e misericórdia a rituais; castiga as iniquidades contra os fracos; e pedirá contas às nações por violarem a lei natural e a Israel por violar a sua Lei. Entre a graça e o castigo, a maldição presente e a glória futura, sua mensagem é severa, porém alentadora: Deus restaurará a justiça cumprindo suas promessas ao seu povo e, através deste, à Humanidade. Será a “Consolação de Sião” reservada ao “Resto de Israel”; o “Dia do Senhor” que nascerá com o “Filho do Homem”, o menino Emanuel, “Servo Sofredor” “ungido” que de uma “Jerusalém Eterna” instaurará a “Era da Paz” para o mundo. Com esse impulso ao futuro os profetas estão na origem da visão escatológica cristã do messias e do seu reino milenar e logo, por vias tortas, dos messianismos e milenarismos seculares como o comunismo ou o nazismo. Mas o que as mensagens proféticas terão a nos dizer hoje?

Convidados
Carlos Alberto Contieri: jesuíta pós-graduado em exegese bíblica pelo Instituto Bíblico de Roma, pela Universidade de Louvain e pela École Biblique de Jerusalém.
Francisco Moreno: doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo.
Suzana Chwarts: professora livre-docente de Estudos da Bíblia Hebraica na Universidade de São Paulo e autora de Esterilidade na Bíblia Hebraica Via Maris: Textos e Contextos na Bíblia Hebraica.

Estadão: Estado da Arte
Carlos Alberto Contieri, Francisco Moreno e Suzana Chwarts
17 de julho de 2019 às 14:33

Podcast originalmente publicado por Estado da Arte sob o título "Os Profetas de Israel"

sábado, 13 de julho de 2019

Artigo: Adiar o fim do mundo (Folha de São Paulo)



“É preciso adiar o fim do mundo para contar mais história”

“Parece que eles querem comer terra, mamar na terra, dormir deitados sobre a terra, envoltos na terra”, escreve o líder indígena Ailton Krenak em seu “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (Companhia das Letras, 2019).

Ailton Krenak durante mesa "Vaza-Barris" com Zé Celso e mediação de Camila Mota - Mathilde Missioneiro/Folhapress

“Eles” não é só o povo de sua etnia, os krenak, indígenas de Minas Gerais, mas o que é visto como uma “sub-humanidade: os caiçaras, índios, aborígenes que ficaram esquecidos nas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina, que são os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra.”
Uma das mais proeminentes lideranças indígenas do país, Ailton Krenak está pop: convidado da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), passa o dia em bateria de entrevistas e é parado na rua por pedidos de fotos. “Quase que arrependi de ter vindo, não consigo nem dormir”, brinca.
É preciso adiar o fim do mundo, conclui o livro de Ailton, para “sempre poder contar mais uma história.”
E que indígenas tem contado histórias?
Ailton nem precisa pensar para responder, tem na manga uma lista de escritores que os brancos deveriam prestar mais atenção: Daniel Munduruku, Cristino Wapichana, Olívio Jekupé, Tiago Hakiy, Eliane Potiguara, Marcia Kambeba —” a marca das mulheres é a denúncia do genocídio. É como se o sentimento as atingisse mais”, diz.

Quarto dia de Flip tem mesa com cordelista Jarid Arraes e Ney Matogrosso

“Depois de terem passado muito tempo lutando por demarcar a terra, os povos indígenas resolveram demarcar a tela”, diz ele, que cita também os cineastas Alberto Alvares e o kaxinawá Zezinho Yubê como alguns dos realizadores a se prestar atenção.
“Ideias para Adiar o Fim do Mundo” é um compilado de duas palestras e uma entrevista que o Ailton deu entre 2017 e 2019 em Portugal, “lugar que evitei visitar durante 50 anos”, ele conta à Folha
“Quando teve a celebração dos 500 anos das viagens dos portugueses pelo mundo afora, fizeram um evento, me convidaram e eu não fui. Achei que era uma festa portuguesa, e ainda por cima ia celebrar a invasão do meu mundo, então eu não ia fazer coro com essa turma.”
Mas “com o tempo, a gente vai ficando mais tolerante a algumas coisas que não suporta na juventude”, afirma. 
Em Paraty, participou de mesa com o diretor de teatro Zé Celso —que abriu agitando um chocalho, num ritual conhecido por Teru Ande entre os krenak, de invocação dos espíritos marét— e deu autógrafos.
Na outra ponta, outros indígenas são vistos aos montes vendendo artesanato sentados nas ruas da cidade histórica —há povos guarani e pataxó na região. 
“O povo indígena continua sem ter um lugar, e esse lugar tem que ser buscado a cada dia, como uma reinvenção do mundo. O lugar dos índios na Flip [como convidado] é um lugar simbólico. Ele não muda nada”, diz Ailton.
“Quem ainda demarca os territórios são os brancos, em Paraty é a mesma coisa. A cidade é celebrada pela sua colonialidade. Se isso fosse só na arquitetura, estava bem composto. A questão é que isso está também na cultura. Nós estamos imersos no colonialismo até o pescoço.”

Florestania
Se a violência do Estado tira o direito de povos tradicionais à cidadania, nas palavras de Ailton, é preciso pensar em uma coisa nova. “Uma outra experiência que chamamos de ‘florestania’: construir espaços de convivência, criação e reprodução da cultura em termos de povos que vivem mais na natureza, na floresta.”

É o embate entre natureza e cidade a principal marca de diferença entre povos, nas palavras do líder indígena. “Não de raça ou de cor, nada disso, mas uma compreensão do que é que importa para viver: um rio com água limpa, a terra com saúde.”

Os krenak vivem na margem esquerda do rio Doce (Watu, na língua deles), que foi inundado em 2015 por um mar de lama de rejeito de mineração da Samarco.

“As comunidades que vivem à beira do rio têm que ser abastecidas por caminhão pipa, têm que receber suprimentos de fora porque não conseguem produzir seu próprio alimento, e estão em estado de refugiados em seu próprio território. Essa é a situação dos krenak.”
Não poluir um rio inteiro é uma boa ideia para adiar o fim do mundo, diz.

(Krenak é a junção de dois termos na língua dos borun: kre, cabeça, e nak, terra)
Thiago Amâncio, 13 de julho de 2019 às 12:20

Texto originalmente publicado pela Folha de São Paulo sob o título "'É preciso adiar o fim do mundo para contar mais história', diz autor indígena"