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terça-feira, 6 de outubro de 2020

Artigo: Isolados: Descaso (Veja)

 

Isolados

Descaso da Funai

 

Fachada do prédio da Funai em Brasília - Mário Vilela/Funai/Divulgação

 

Enquanto diversos povos indígenas sofrem para tentar se proteger em meio à pandemia do coronavírus que assola o país, a forma como a atual gestão da Fundação Nacional do Índio (Funai) lida com os índios isolados, os mais vulneráveis neste momento, continua sendo alvo de reclamações dos servidores e coordenadores do órgão. A presidência da Funai, liderada por Marcelo Xavier, ignora pedidos contra exonerações, desmonta equipes experientes e aumenta as críticas internas.

À medida que a atual gestão ignora os pedidos das equipes que trabalham há anos com esses povos, o coronavírus continua fazendo vítimas: 158 povos já foram afetados pela doença e 836 indígenas já morreram vítimas da Covid-19. Os servidores asseguram: os índios isolados nunca estiveram tão vulneráveis.

Um dos últimos pontos de atrito entre o presidente da Fundação e os servidores foi a nota de pesar publicada no início de setembro, após a morte do indigenista Rieli Franciscato, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau (RO), que trabalhou por mais de 30 anos com índios isolados e de recente contato. Tragicamente, a flecha que tirou sua vida em Rondônia veio dos índios isolados, grupo ao qual se dedicou nos últimos 10 anos de sua vida com a função de protegê-los.

Fontes afirmaram à coluna que Rieli era contra o desmonte comandado pela atual gestão da Funai e sempre condenou o trabalho dos missionários próximo a índios isolados ou de recente contato, sendo alvo de perseguição dentro do próprio órgão indigenista. O coordenador de índios isolados da Funai, o missionário Ricardo Lopes Dias, em nota de pesar da Funai que indignou servidores, diz que “Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos”.

Para os servidores, no entanto, a nota seguiu apenas um protocolo, sem retratar a realidade. Na visão dos funcionários da Funai, Ricardo Lopes Dias não valorizava o trabalho de Rieli na TI Uru-Eu-Wau-Wau e das demais equipes que cuidam dos povos isolados. Os funcionários alegam que se o legado do Rieli fosse realmente respeitado, não haveria um missionário à frente da Coordenação de Índios Isolados e de Recente Contato, o qual possui como única experiência de trabalho indigenista a evangelização de povos indígenas.

Além da nota, outro motivo de críticas entre os funcionários da Funai é que, cerca de 15 dias após a morte de Rieli, a fundação publicou a Portaria 1.080 instituindo a “Galeria de Notáveis”, com o objetivo de homenagear servidores que vieram a óbito no desempenho de suas atribuições ou em atos “heroicos”. A avaliação é de que a Funai tenta, com isso, capitalizar apoio na sociedade ao passar um sentimento de pesar e prestígio com o respeitado sertanista.

Os servidores ouvidos pela coluna dizem que a melhor homenagem ao sertanista neste momento seria atender as reivindicações de melhorias funcionais pelas quais Rieli e demais coordenadores de índios isolados no país vêm pleiteando junto à direção da Funai.

Amazônia

As solicitações de melhorias vêm ocorrendo desde o começo da gestão Bolsonaro e, com a incidência do coronavírus no país, as preocupações com os povos indígenas só aumentaram.  Além disso, há muitas reclamações em relação ao tratamento das equipes que atuam na Amazônia.

Em outro episódio, a coluna mostrou como a sala de situação criada pelo governo, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), para tratar das medidas de proteção aos povos indígenas isolados contra o avanço do coronavírus, vem deixando de realizar as reuniões periódicas que deveria.

Processo

A coluna teve acesso a um processo que mostra repetidos esforços de coordenadores de índios isolados da Funai para tentar reverter exonerações e posturas da gestão de Marcelo Xavier contra as equipes que cuidam dos índios isolados na Funai.

Dentro do processo, um memorando de outubro de 2019 enviado ao presidente Marcelo Xavier, mostra 10 Coordenadores das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs) da Funai, incluindo Rieli Franciscato, demonstrando sua insatisfação com a notícia sobre a exoneração de Bruno da Cunha Araújo Pereira da Coordenação de Índios Isolados e de Recente Contato.

O indigenista chefiou a maior expedição para contato com índios isolados dos últimos 20 anos e sua saída teria acontecido por pressão de setores ruralistas e religiosos ligados ao governo.

Apesar do apelo dos coordenadores, que escreveram no memorando afirmando que Bruno Pereira, “além de reunir todos os requisitos necessários para o desempenho do cargo, foi e continua sendo avaliado pelos Coordenadores das FPEs como o quadro da Fundação mais indicado para exercer tal função”, a exoneração foi formalizada no dia 04 de outubro de 2019.

A exoneração gerou indignação dentro da Funai e, no mesmo dia, o coordenador Francisco Ribeiro Gouvea pediu dispensa da função de substituto da Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (FPEVJ).

No memorando, Francisco cita a saída de Bruno. “Eu e os servidores da FPEVJ recebemos consternados a notícia da exoneração do atual Coordenador-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, Bruno Pereira, mesmo após a insistência dos coordenadores de FPEs em abrir diálogo com a alta gestão da FUNAI”, escreveu o servidor.

Alguns dias depois, onze coordenadores da Funai pediram uma reunião com a presidência da fundação para tratar da situação das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs).

Em resposta ao pedido, após protelar por semanas, o Gabinete de Marcelo Xavier pediu a indicação de apenas três nomes, alegando que não seria possível receber os 11 coordenadores “em razão do contingenciamento de recursos que têm sido enfrentado por esta Fundação e das limitações relativas à emissão de passagens e diárias”.

Durante a reunião, realizada em 12 de novembro de 2019, os coordenadores expuseram os avanços e entraves para execução dessa política pública e reapresentaram a pauta reivindicatória dos coordenadores, intitulada de “Agenda 2018”, onde apontam as fragilidades do trabalho como a falta de normatização do poder de polícia da fundação, o déficit de pessoal e recursos financeiros  e a importância de manter equipes em campo nas Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs). Apesar de participar da reunião, o presidente Marcelo Xavier não cumpriu a maioria dos compromissos feitos no encontro.


Veja

Matheus Leitão 

06 de outubro de 2020 às 11:21hs


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Isolados: Indigenista morto (G1)

  

Isolados do Cautário

Coordenador da Funai morto com flechada

 

Coordenador da Funai morre após levar flechada no tórax em Seringueiras, Rondônia

 

Os indígenas isolados que vivem no território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia têm a migração como forma de sobrevivência. Um dos trabalhos de Rieli Franciscato, que morreu nesta quarta-feira (09/09/2020) após ser atingido no tórax por uma flecha, era monitorar essa circulação à distância (veja mais no vídeo acima).

Rieli tinha 56 anos e era coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau, que pertence à Fundação Nacional do Índio (Funai).

Junto com o amigo Roberto de Barros Ossak, que é agente da Pastoral da Terra e pesquisa o direito agrário na região, Rieli fez uma expedição no território Uru-Eu-Wau-Wau para entender o motivo dos indígenas circularem do interior da reserva para áreas afastadas do núcleo. O encontro do indigenista com membros da tribo ocorreu perto de um acesso viário conhecido como Linha 6, em Seringueiras (RO).

O grupo que disparou a flecha contra Rieli é formado por 5 indígenas, segundo testemunhas. Eles são identificados como Isolados do Cautário (nome de um rio da região). Não se sabe a quantidade total de pessoas que compõem esse povo indígena.

O trabalho de Rieli era justamente tentar conscientizar a população sobre a importância da preservação da reserva para que os povos continuassem no interior da mata.

 

Rieli Franciscato foi morto após ser atingido por flechada em Seringueiras - Foto: Roberto de Barros/Arquivo pessoal


Ao G1, Ossak explicou que a circulação dos indígenas está diretamente ligada às invasões de território, principalmente na região de Buritis, Parecis e Campo Novo: "Estão vindo para a borda em busca de alimentos. Eles são coletores, não cultivam, então precisam migrar de uma região para a outra coletando alimentos, como: castanha, mel, açaí".

A partir da expedição, segundo o pesquisador, foi possível notar que as invasões começam pelos madeireiros e depois por latifundiários que querem desmatar a região para criação de gado. Também há a ação de garimpeiros.

Em maio, a Funai e a Polícia Federal flagraram um garimpo e atos de extração de madeira no entorno da terra indígena, no município de Campo Novo de Rondônia. Ninguém foi preso.

 

Barracas montadas por garimpeiros foram encontradas durante fiscalização da Polícia Ambiental e Funai em terra indígena de Rondônia. — Foto: Divulgação/Associação Kanindé

 

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau é uma área habitada por 9 povos indígenas. No ano passado, ela ficou entre as 10 terras mais desmatadas do país. Com 1,8 milhão de hectares de área, a Uru-Eu-Wau-Wau já perdeu 42,54 km² entre 2008 e novembro de 2019, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

 

Terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau — Foto: Juliane Souza/G1

 

A análise de Ossak é que o avanço das invasões fez com que os indígenas ficassem acuados no centro da terra indígena.

"No período que eles ficaram reclusos ao centro, começou a faltar alimento. Então, agora eles estão retornando às bordas. Essa é minha análise enquanto técnico agrícola. A falta de alimento é o que vai ocasionando que os indígenas venham para a borda da reserva, onde tem mais caça, mais fartura de alimento. E é na borda que eles são avistados", diz o especialista.

Para a Associação Etnoambiental Kanindé, também colaborou para ação o fato de os indígenas isolados não saberem a distinção entre defensor e inimigo. O entendimento em caso de contato com não membros é que o território do grupo "está sendo invadido e os índios estão tentando sobreviver".


Vídeo fala sobre a política de respeito aos indígenas isolados.

Investigação

G1 teve acesso à averiguação policial que detalha a chegada dos indígenas às proximidades do acesso viário conhecido como "linha 6" em Seringueiras.


Vídeo fala sobre a investigação da morte de Rieli Franciscato 


Segundo o documento, por volta das 10h desta quarta (09/09/2020), um morador da área estava sentado na frente de sua casa quando olhou para o pasto que faz divisa com a Funai e viu cinco indígenas não contactados, despidos e se deslocando com cautela no sentido da casa de um homem conhecido como Monteiro.

"Eles estavam em formação de leque, e os dois da ponta estavam portando arcos aparentemente para caça", lembrou.

O morador disse que vive no local há 25 anos e é a primeira vez que avista os indígenas naquela região.

Quando a polícia foi informada sobre esse relato, acionou Rieli para, na condição de representante da Funai, auxiliar o monitoramento. A partir disso, eles adentraram na região seguindo as pegadas dos indígenas. A intenção era fazer um trabalho, à distância, mas Rieli acabou sendo visto e atingido com uma flecha no peito.

Ouça o relato do policial Paulo Ricardo Bressa, amigo de Rieli, narrando os momentos que antecederam a morte

Indígenas foram avistados em junho

Em junho deste ano, um grupo de indígenas isolados foi visto por uma dona de casa no quintal de um sítio em Seringueiras. Eles trocaram uma carne de caça por uma galinha e levaram um machado. A moradora Gabriella Euvira Moraes disse que correu para o banheiro e filmou a visita.

"Eu nem cheguei a sair ou me colocar para fora. Eu vi pela fresta na porta e vi um homem parado. Foi quando prestei atenção, e ele estava sem roupa. Nisso que eu me escondi, escutei três homens chegando perto da casa e conversando. Não dava para entender nada. Eles andaram ao redor da casa", contou Gabriella na época.

Segundo a Kanindé, esse é o mesmo grupo que Rieli cruzou antes de ser atingido.


Moradora de Seringueias se depara com grupo de indígenas que vivem isolados

Protetor dos índios

Rieli Franciscato, de 56 anos, morreu na quarta após ser atingido no tórax por uma flecha de bambu, de 1,5 metro, disparada pelos indígenas. Logo que foi atingido, houve uma tentativa de socorro, mas o sertanista chegou morto ao hospital.

Ele era uma das grandes referências nos trabalhos de proteção aos indígenas isolados da Amazônia. O coordenador defendia o não contato com o grupo e atuava para evitar um conflito com a população local. Também fez parte da equipe que demarcou a primeira terra exclusiva para indígenas isolados.


Indigenistas contam como foi a morte de Rieli Franciscato, especialista em índios isolados

 

G1 RO

Ana Kézia Gomes

10 de setembro de 2020 às 16h30

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Artigo: Isolados: Medidas Urgentes (O Globo)

 

Isolados

Medidas Urgentes

 

Grupo de índios isolados que vive no interior do Acre fez contato no rio Envira Foto: Funai/Arquivo


RIO - O Ministério Público Federal (MPF) cobrou do governo ação imediata para acompanhar a situação dos povos indígenas que vivem na fronteira do Acre com o Peru, em meio à pandemia da Covid-19. O ofício, encaminhado à Fundação Nacional do Índio (Funai) e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na noite desta segunda-feira (17/08/2020), pede urgência dos órgãos para atuarem na recente situação de contato feito por um grupo de isolados que vive no alto curso do rio Humaitá, revelado pelo GLOBO no sábado (15/08/2020).

Após o contato feito por um grupo estimado entre 10 e 20 índios com a aldeia Terra Nova, no rio Envira, onde vivem os Kulina Madiha, os isolados teriam indo embora levando alimentos, panelas, machado e algumas peças de roupa, cobertas e redes. O GLOBO apurou junto a moradores da aldeia que há índios Kulina com sintomas de tosse, dor de cabeça e cansaço. A área onde vivem esses índios é um dos pontos da Amazônia no qual não existe barreiras sanitárias instaladas pelo governo federal.

O ofício do MPF dá prazo de 48 horas para Funai e Sesai se manifestarem com dados epidemiológicos relativos aos povos indígenas localizados na região do rio Envira, onde está a aldeia Terra Nova. "Especialmente quanto a ocorrência de síndromes gripais, respiratórias agudas graves, inclusive covid-19, e outras que entender relevantes para a avaliação de risco decorrente do contato", diz o documento.

Ex-chefe da base da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, o sertanista José Meirelles afirmou ao GLOBO que a probabilidade desses índios terem se contaminado em razão do contato é de "99,9%".

- E eu não estou nem falando de coronavírus. A probabilidade desses índios terem escapado de pegar gripe é a mesma de eu ganhar na Mega-Sena. E, se pegaram, podem estar todos mortos - afirma.

O pedido de urgência, assinado pela subprocuradora-geral da República Eliana Torelly, considerou o momento delicado em que vivem esses povos originários ameaçados de serem dizimados caso o coronavírus se espalhe por suas aldeias. Eliana coordena a 6ª Câmara da Procuradoria Geral da República (PGR) e exerce o papel, no âmbito do MPF, de integrar e revisar as ações institucionais destinadas à proteção da população indígena e comunidades tradicionais.

No ofício, Eliana questiona se houve acionamento do Plano de Contingência para Situações de Contato e ativação da sala de situação conforme determina a Portaria Conjunta nº 4.094/2018, do Ministério da Saúde e da Funai, que define princípios, diretrizes e estratégias para a atenção à saúde dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato.


Fotos mostram índios isolados na fronteira do Acre

 

Índios isolados no Rio Envira disparam flecha contra aeronave, entre a fronteira do Acre e o Peru, em foto de 2008. Foto: Gleison Miranda/Funai

Grupo de índios isolados que vive no interior do Acre fez contato no rio Envira. Foto: Funai/Arquivo
 
Ricardo Stuckert e José Meirelles flagraram movimento de isolados na floresta do Acre. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo
 
Índios atiraram flechas na tentativa de afastar a aeronave. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo
 
As fotos foram feitas durante um voo de helicóptero próximo à fronteira com o Peru. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo
 
Maloca de palha registrada durante o sobrevoo feita por José Meirelles. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo
 
Uma das características desses índios é ter parte da frente da cabeça raspada e cabelos grandes atrás. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo
 
Vista aérea da região em que os índios foram encontrados. Foto: Ricardo Stuckert / Agência O Globo

O documento lembra ainda que os Kulina "mantêm contato frequente com a cidade de Feijó, que já conta com mais de 900 casos da doença" e que a visita dos isolados "pode contribuir para disseminar o vírus entre essa população".

Eliana cita ainda a “sabida vulnerabilidade imunológica dos povos indígenas isolados e a situação de emergência sanitária estabelecida no país”.


'Carecas-cabeludos de pés grandes'

Relatos feitos ao GLOBO pelo cacique Cazuza Kulina dão conta de que, há mais ou menos uma semana, um índio chegou sozinho à aldeia e pernoitou na casa de um morador. Um dia depois, de acordo com Cazuza, homens, mulheres e crianças (estimados entre 10 e 20 indígenas) também chegaram. O contato, considerado raro por indigenistas, acontece em meio ao momento de maior risco desses povos por conta do avanço da Covid-19 dentro das florestas.

Por não terem memória imunológica para resistir às mais simples gripes, esses povos originários correm risco de serem dizimados caso sejam contaminados.

Meirelles participou de várias situações nas quais pôde registrar a presença de índios isolados nesta área do rio Envira. Na mais marcante e tensa delas, em 2014, ficou frente a frente a um grupo de isolados. (ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO).

  


Meirelles aposta que pelas descrições feitas pelo cacique Cazuza Kulina ao GLOBO tem convicção de se tratar do mesmo grupo que avistou em duas oportunidades: em 2008, durante um sobrevoo quando era coordenador na Funai, e depois em 2016, na companhia do fotógrafo Ricardo Stuckert, em imagens que correram o mundo.

- Pelo fato de que levaram vidro de garrafa para cortar cabelo é quase certo de serem os isolados que avistamos em duas oportunidades. Eles têm a cabeça raspada até o meio e cabelos grandes atrás, provavelmente pertencem a um grupo do tronco linguístico pano.

No voo que fez com o fotógrafo Ricardo Stuckert, no final de 2016, Meirelles diz ter percebido que eles têm pés grandes também, além do corte de cabelo diferenciado.

- Essa informação de que os homens têm cortes de cabelo diferentes é muito relevante. Mostra claramente que eles pertencem a uma etnia que ainda desconhecemos. De acordo com o sertanista, esse grupo de isolados vive numa área de difícil acesso, no centro da floresta, no Alto Rio Humaitá, e se dividem em até seis aldeias. Ele estima que há cerca de 400 indígenas isolados vivendo por lá.

- Os homens andam nus, usando apenas uma casca de árvore em volta da cintura, onde amarram o pênis. Já as mulheres usam uma saia feita de algodão tingido, provavelmente tecido e fiado por elas - afirma Meirelles.

O sertanista conta, ainda, ter conhecimento desses índios desde 1989 e que eles transitam na fronteira entre Brasil e Peru com certa assiduidade. Há também indicações de que eles têm o hábito de se mudar num raio de até 10km de tempos em tempos.

Procurada, a Funai afirma que enviou uma equipe ao local. O GLOBO confirmou na manhã desta terça-feira (18/08/2020) que até o momento não havia chegado ninguém por lá.


O Globo

Daniel Biasetto

18 de agosto de 2020 às 17:21


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Artigo: Isolados: Mortandade e Guerra (O Globo)

  

Isolados

Mortandade e Guerra entre Aldeias

 

O sertanista José Meirelles quando trabalhava na base da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, na foz do Igarapé Xinane com o rio Envira Foto - Arquivo Pessoal

 

RIO - Responsável por fiscalizar durante 22 anos um imenso território com a presença de ao menos quatro etnias desconhecidas no Acre, o sertanista José Meirelles faz uma previsão sombria das consequências do contato feito entre índios isolados e uma aldeia localizada no rio Envira, na fronteira com o Peru, revelado pelo GLOBO. 

Há relatos de índios com tosse, dores de cabeça e cansaço na aldeia Terra Nova, onde foi feito o contato com os isolados. A Funai diz que já enviou uma equipe ao local para investigar o caso. 

O contato, considerado raro por indigenistas, acontece em meio ao momento de maior risco desses povos originários por conta do avanço da Covid-19 dentro das florestas. 

Por experiências passadas, Meirelles arrisca a cravar "99,9% de chances" de que algum desses isolados tenha contraído gripe de algum indígena que more nessa aldeia e, de volta para suas malocas, espalhado a doença. 

- E eu não estou nem falando de coronavírus. A probabilidade desses índios terem escapado de pegar gripe é a mesma de eu ganhar na Mega-Sena. E, se pegaram, podem estar todos mortos - afirma.


Fotos mostram índios isolados na fronteira do acre


Índios isolados no Rio Envira disparam flecha contra aeronave, entre a fronteira do Acre e o Peru, em foto de 2008. Foto - Gleison Miranda/Funai


Ricardo Stuckert e José Meirelles flagraram movimento de isolados na floresta do Acre. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo

 

Índios atiraram flechas na tentativa de afastar a aeronave. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo


As fotos foram feitas durante um voo de helicóptero próximo à fronteira com o Peru. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo

 

Maloca de palha registrada durante o sobrevoo feita por José Meirelles. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo

 

Uma das características desses índios é ter parte da frente da cabeça raspada e cabelos grandes atrás. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo

 

Vista aérea da região em que os índios foram encontrados. Foto - RICARDO STUCKERT / Agência O Globo

 

Meirelles aposta que pelas descrições feitas pelo cacique Cazuza Kulina ao GLOBO tem conviccção de se tratar do mesmo grupo que avistou em 2008 durante um sobrevoo quando era coordenador na Fundação Nacional do Índio (Funai) da Frente Ambiental de Proteção Etno-Ambiental do rio Envira, e depois em 2016, já fora da Funai. 

- Eu conheço o cacique Cazuza há mais de 30 anos e confio nele. Certamente aconteceu o contato. E pela descrição dele de que levaram vidro de garrafa para cortar cabelo é quase certo de serem os isolados que avistamos em duas oportunidades. Eles têm a cabeça raspada até o meio e cabelos grandes atrás, provavelmente pertencem a um grupo do tronco linguístico pano. 

De acordo com o sertanista, esse grupo de isolados vive numa área de difícil acesso, no centro da floresta, no Alto Rio Humaitá, e se dividem em até seis aldeias. Ele estima que há cerca de 400 indígenas isolados vivendo por lá. 

- Os homens andam nus, usando apenas uma casca de árvore em volta da cintura, onde amarram o pênis. Já as mulheres usam uma saia feita de algodão tingido, provavelmente tecido e fiado por elas - afirma Meirelles. 

O sertanista conta, ainda, ter conhecimento desses índios desde 1989 e que eles transitam na fronteira entre Brasil e Peru. Há também indicações de que eles têm o hábito de se mudar num raio de até 10km de tempos em tempos. 

'Carecas-cabeludos de pés grandes'

No voo que fez com o fotógrafo Ricardo Stuckert, no final de 2016, Meirellies diz ter percebido que eles têm pés grandes também, além do corte de cabelo diferenciado. 

- Essa informação de que os homens têm cortes de cabelo diferentes é muito relevante. Mostra claramente que eles pertencem a uma etnia que ainda desconhecemos. 

Meirelles participou de várias situações nas quais pôde registrar a presença de índios isolados nesta área do rio Envira. Na mais marcante e tensa delas, em 2014, ficou frente a frente a um grupo de isolados, em imagens que correram o mundo. (ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO).




- Ali, no terceiro dia de contato, eles já estavam gripados. Foi preciso deixá-los de quarentena por dias, até se curarem, para voltar à aldeia deles. Agimos rápido com apoio médico - conta. Esse mesmo grupo, 10 anos antes, tinha flechado Meirelles no rosto durante uma emboscada na mata enquanto saía para pescar. 

Confira os principais trechos da entrevista: 

Qual o risco de um contato desse tipo em meio à pandemia?

Nessa altura do campeonato eu não estou nem preocupado com a Covid. Se esses índios estiveram na aldeia, dormiram lá, apareceu um monte de gente, pegaram roupa, comeram macaxeira, eu tenho 99,9% de certeza que eles pegaram uma gripe. Como já faz uns dez dias, se isso ocorreu, já deve ter um monte de gente morta na aldeia. 

O que fazer em uma situação dessas?

Isso é um problema seríssimo. Eu não sei o que a Funai vai fazer em relação a isso, pois ali é uma região de difícil acesso, eles vivem no centro da mata, esses índios não vivem na beira de rio. Eles vivem onde começa o enrugamento da Cordilheira dos Andes. Numa situação dessas, não tem que colocar um servidor da Funai numa canoa velha para subir. Tinha que ter acionado um helicóptero para que essa tal equipe que está indo para lá não fique presa na seca dos rios, em pleno verão amazônico. É um trabalho delicado, qualquer mal-entendido, qualquer atitude mal pensada pode levar ao desastre, até porque uma guerra pode estar em curso por lá... 

Como assim guerra?

Se essa hipótese da qual estou falando se confirmar e começar a morrer gente, o que os índios isolados vão pensar? Aqueles malditos índios que visitamos botaram feitiço na gente pra matar. E daí sabe o que vai acontecer? Os homens que não estiverem doentes vão voltar lá e flechar os madiha que deram roupas contaminadas por "feitiço”, no entendiimento deles. Então, além da gripe e da mortandade, a gente vai assistir a uma guerra. Olha o tamanho da encrenca.


Indígenas e a Pandemia de Covid-19 no Brasil

 

Indígena Yanomami usa uma máscara enquanto aguarda para fazer teste de Covid-19 em um pelotão especial de fronteira, na terra indígena de Surucucu, em Alto Alegre, Roraima Foto - ADRIANO MACHADO / REUTERS

 

A assistente de enfermagem indígena Witoto, Vanda Ortega, 32 anos, cuida de um paciente durante uma visita ao Parque das Tribos, comunidade indígena nos subúrbios de Manaus, no Amazonas. Ortega vai de casa em casa equipada com luvas, um jaleco de proteção e uma máscara na qual se lê “Vidas indígenas importam”; mensagem inspirada no slogan “Black Lives Matter”; de militantes negros nos EUA Foto - RICARDO OLIVEIRA / AFP

 

Soldado do Exército distribui máscaras faciais a membros da etnia Yanomami na terra indígena de Surucucu, em Alto Alegre, Roraima Foto - NELSON ALMEIDA / AFP

 

Equipe médica das Forças Armadas realiza um teste rápido para Covid-19 em um indígena na base do pelotão especial de fronteira, em Alto Alegre Foto - NELSON ALMEIDA / AFP

 

Enfermeiras indígenas da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) da etnia Arapiuns e da etnia Tapuia realizam um teste rápido para COVID-19 no chefe Domingos, da tribo Arapium, nas margens do baixo rio Tapajós, no município de Santarém, oeste do Pará Foto - TARSO SARRAF / AFP

 

A técnica de enfermagem indígena Kambeba, Neurilene Cruz, 36 anos, realiza testes para COVID-19 às margens do rio Negro, na aldeia Três Unidos, estado do Amazonas. Foto - BRUNO KELLY / REUTERS

 

Indígenas Sateré Mawé preparam ervas medicinais para tratar pessoas com sintomas da COVID-19 na comunidade Wakiru, no bairro de Tarumã, uma área rural a oeste de Manaus. Foto - RICARDO OLIVEIRA / AFP

 

O líder indígena André Sateré, 38 anos, coleta ervas medicinais como carapanaúba, caferana e sara tudo, todas nativas da floresta amazônica, para tratar pessoas que apresentam sintomas do novo coronavírus. Foto - RICARDO OLIVEIRA / AFP

 

O líder indígena Valdiney Sateré, 43 anos, colhe caferana, planta nativa da floresta amazônica usada como erva medicinal para tratar pessoas com a COVID-19 em sua comunidade. Foto - RICARDO OLIVEIRA / AFP

 

Javier Alexandre Andres Cruz, 26 anos, um indígena Tikuna contaminado com a COVID-19, é atendido em uma ambulância depois de chegar de jato da UTI de Tabatinga a Manaus. Foto - BRUNO KELLY / REUTERS

 

Indígenas sateré-mawé usam um smartphone para entrar em contato com um médico no estado de São Paulo para receber orientação em meio à pandemia de coronavírus, na comunidade Sahu-Ape, a 80 km de Manaus. Lar da maioria dos povos indígenas do país, o Amazonas é uma das regiões que foram mais afetadas pela pandemia. Foto - RICARDO OLIVEIRA / AFP

 

Indígenas participam do funeral do chefe Messias Kokama, 53, do Parque das Tribos, que morreu pelo novo coronavírus, em Manaus. Foto - BRUNO KELLY / REUTERS

 

O chefe Leno, da tribo Kunaruara, faz um remédio natural com infusão de mel, em sua aldeia, ao lado do rio Tapajós, no município de Santarém. Foto - TARSO SARRAF / AFP

 

Funcionário da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) verifica a temperatura dos membros da etnia Tikuna, em Lago Grande, Amazonas. Foto - AFP

 

Alguns índios da aldeia disseram que estão com sintomas de gripe...

Os kulina madiha ficam distante uns quatro ou cinco dias de canoa do município de Feijó. Trocaram muitas peças com a cidade, certamente tem muito vírus da gripe entre eles. Eu me lembro do contato que fizemos com os isolados em 2014, que chegaram na aldeia mexendo em tudo. No terceiro dia, eles já estavam gripados. Se não fosse o Dr. Douglas (o médico sanitarista Douglas Rodrigues, que trabalha no Xingu) vir de São Paulo para me ajudar, teria ficado ruim. E olha que eram apenas sete índios, mas a gente conseguiu tratar. Lá, nessa localidade de agora deve ter uns 400 índios. 

Já havia registro desses índios isolados nessa região?

É um grupo grande. Não tem só uma aldeia. São várias aldeias, cinco, seis, sei lá. Provavelmente tem umas 400 pessoas, vamos dizer assim. Pelas características do cabelo comprido, testa raspada... é o único grupo isolado que ainda tem por lá, nessa área. Captamos imagens deles em dois sobrevoos, um quando estava na Funai, em 2008, e outro em 2016, quando estava acompanhado do fotógrafo Ricardo Stuckert. Eles atiraram muitas flechas contra o helicóptero e as imagens correram o mundo pela BBC. 

O cacique me disse que não entendeu bem a fala deles...

Por conta das fotos, do tipo de roçado e das festas deles, eu desconfio que fazem parte de grupos identificados como pano. Madiha (Kulina) é outro tronco linguístico, eles não entenderiam mesmo, apenas algumas palavras podem ser semelhantes. 

Como o senhor vê as ações do governo no combate à Covid-19 nas aldeias?

Com muita tristeza. Pode ter certeza que deve ter alguém no governo Bolsonaro que está achando tudo isso ótimo.

 

O Globo

Daniel Biasetto

17 de agosto de 2020 às 20:51